A mais recente crise entre o Executivo e a cúpula do Congresso não é apenas mais um atrito institucional; ao contrário, ela representa um alerta grave sobre a incapacidade do governo Lula de compreender o funcionamento do próprio sistema político. Por consequência, as rupturas públicas de Davi Alcolumbre e Hugo Motta expõem, de maneira contundente, a falência da articulação governista.
Além disso, a escolha do presidente Lula de ignorar a preferência do Senado na indicação de Jorge Messias para o STF foi interpretada como gesto de arrogância institucional. Assim, Alcolumbre deixou claro que não pretende mais atuar como fiador político do governo. Esse movimento, embora previsível, foi completamente subestimado pelo Planalto.
Na Câmara, a situação se agravou ainda mais. Hugo Motta afirmou que não possui “qualquer interesse” em manter diálogo com o líder do PT. Portanto, o governo perdeu, simultaneamente, dois canais essenciais de negociação. Desse modo, a imagem de isolamento político do governo se consolidou rapidamente.
Entretanto, o problema não se resume a nomes ou gestos. Ele evidencia um diagnóstico mais profundo: o governo confiou excessivamente em um modelo ultrapassado de articulação, baseado apenas em Jaques Wagner e Lindbergh Farias. Além disso, ignorou sinais óbvios de desgaste e acreditou que velhas alianças continuariam valendo automaticamente.
Como resultado, projetos estratégicos — incluindo a LDO e outras pautas estruturais — correm risco real de travar no Congresso. Por isso, a crise chega em um momento especialmente delicado, quando o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral e as tensões internas tendem, naturalmente, a crescer.
O Planalto, portanto, precisa abandonar a zona de conforto. Para isso, será necessário reconstruir pontes políticas, reconhecer erros e, principalmente, tratar o Congresso como um poder independente — e não como extensão administrativa do Executivo.
Por fim, o recado enviado pelo Congresso é claro: ou o governo ajusta sua estratégia, ou, inevitavelmente, verá sua agenda virar refém de um Legislativo cada vez mais autônomo e disposto a responder com firmeza às tentativas de desrespeito institucional.


