Durante entrevista ao programa Bom Dia Cidade, da Rádio Câmara 90.3 FM, o médico Dr. Glaydson Cerqueira, especialista em Medicina Funcional Integrativa e Oftalmologia, trouxe reflexões importantes sobre alimentação, saúde e os caminhos que a medicina moderna tem retomado para promover qualidade de vida.
Com uma abordagem clara e didática, o médico destacou que, apesar de toda a evolução tecnológica, o ser humano ainda carrega o mesmo genoma dos seus ancestrais, o que significa que nosso organismo continua biologicamente preparado para um estilo de vida muito diferente do atual.
Comer comida de verdade: o princípio da alimentação ancestral
Segundo o Dr. Glaydson, quando falamos em alimentação ancestral, estamos falando, essencialmente, em comer comida de verdade. Isso inclui carnes, peixes, frango, ovos, frutas, legumes, verduras e vegetais, e exclui — ou ao menos reduz drasticamente — os alimentos ultraprocessados.
“Desembrulhar menos e descascar mais” resume bem esse conceito. Para ele, o excesso de produtos industrializados, ricos em farinhas refinadas, açúcares e óleos vegetais processados, está diretamente ligado ao aumento das doenças crônicas que vemos hoje, como obesidade, diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares.
Comer de três em três horas é mesmo necessário?
Um dos pontos mais debatidos na entrevista foi a crença, durante décadas disseminada, de que todos precisam comer a cada três horas. O médico explica que essa recomendação não faz sentido para a maioria das pessoas saudáveis.
De acordo com ele, quem realmente precisa se alimentar com mais frequência são:
- recém-nascidos,
- gestantes,
- mulheres em fase de amamentação.
Fora esses casos, o organismo humano é perfeitamente capaz de passar períodos maiores sem comer, algo que sempre fez parte da história da humanidade. “Nos primórdios, o ser humano podia passar um dia inteiro sem encontrar alimento, e isso não significava adoecimento”, destaca.
Jejum intermitente e individualidade
Dr. Glaydson também reforça que o jejum intermitente possui respaldo científico e pode trazer benefícios importantes à saúde, desde que respeitada a individualidade de cada pessoa. Nem todos precisam seguir o mesmo padrão alimentar, e a medicina não é uma ciência exata.
O mais importante, segundo ele, é compreender que qualidade é mais relevante do que quantidade ou frequência. Uma alimentação baseada em alimentos naturais, com boas fontes de proteína e gordura, gera saciedade e equilíbrio metabólico, diferentemente de refeições frequentes ricas em carboidratos refinados.
O papel das proteínas e das gorduras boas
Outro destaque da entrevista foi a mudança na pirâmide alimentar, especialmente após revisões recentes nos Estados Unidos, que impactam o mundo inteiro. A antiga pirâmide, baseada em grãos e carboidratos refinados, mostrou-se equivocada ao longo das últimas décadas.
Hoje, a ciência aponta para uma pirâmide invertida, na qual:
- proteínas (animais e vegetais) ocupam papel central;
- gorduras boas, como manteiga, azeite de oliva e até banha animal, voltam a ser valorizadas;
- carboidratos refinados deixam de ter protagonismo.
O médico cita o exemplo do ovo, que já foi considerado vilão e hoje é reconhecido como um dos alimentos mais completos que existem, rico em proteínas, aminoácidos, vitaminas e capaz de promover saciedade.
Microbiota, hidratação e atividade física
A entrevista também abordou temas que antes eram pouco discutidos, como a saúde da microbiota intestinal, a hidratação adequada e a atividade física.
Dr. Glaydson reforça que:
- beber água é essencial e ainda negligenciado por muitas pessoas;
- o intestino tem influência direta tanto na saúde quanto no adoecimento;
- atividade física é um “remédio gratuito”, capaz de prevenir doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, demências e até Alzheimer.
Informação como ferramenta de transformação
Para o médico, o maior desafio não é a falta de informação, mas sim a qualidade da informação. Em um cenário onde redes sociais oferecem tanto conteúdos valiosos quanto informações equivocadas, cabe às pessoas buscar fontes confiáveis e desenvolver senso crítico.
“O conhecimento é libertador”, afirma. Quando o indivíduo entende o impacto das suas escolhas alimentares, ele passa a ter autonomia para decidir — e também consciência das consequências.
Um caminho possível para uma sociedade mais saudável
Encerrando a entrevista, Dr. Glaydson defende que mudanças reais passam também por políticas públicas, educação alimentar desde a infância e resgate da alimentação tradicional brasileira, baseada em arroz, feijão, proteínas e saladas, em vez de ultraprocessados.
A mensagem final é clara: estamos, aos poucos, retomando um caminho mais alinhado com a nossa biologia, e isso pode significar gerações futuras mais saudáveis do que as atuais.


