No editorial do Jornal WW, o jornalista William Waack analisou o avanço das propostas que tratam do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho no Congresso Nacional. Para ele, o movimento não surpreende. Pelo contrário: revela o peso eleitoral que o tema ganhou em Brasília.
Segundo Waack, o presidente da Câmara dos Deputados decidiu antecipar o debate ao encaminhar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) diretamente à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Como resultado, a proposta entrou oficialmente em tramitação. A CCJ tem papel central na Câmara, pois avalia a constitucionalidade das matérias antes de qualquer avanço.
Governo entra na disputa pelo protagonismo
Logo em seguida, o governo federal reagiu. De acordo com William Waack, o Planalto trata a redução da jornada sem corte salarial como uma bandeira própria. Por isso, passou a articular um projeto de lei sobre o tema, com pedido de urgência, o que acelera a votação.
Além disso, existe um terceiro texto em circulação. Esse projeto avançou no Senado no fim do ano passado e propõe reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas. Assim, o debate se transforma em uma corrida política. Cada grupo tenta assumir a autoria da proposta diante do eleitorado.
Redução da jornada já ocorre no Brasil
No editorial, Waack destacou um ponto pouco citado no debate público. A redução da jornada de trabalho já acontece no país. Para sustentar o argumento, ele citou o sociólogo e especialista em relações trabalhistas José Pastore.
Segundo Pastore, a jornada média no Brasil, definida por negociações coletivas, já fica abaixo das 40 horas semanais em vários setores. Essas negociações contam com respaldo constitucional. Além disso, permitem ajustes conforme a realidade de cada atividade econômica.
Enquanto alguns setores conseguem reduzir a carga horária, outros não têm essa margem. Por isso, o modelo negociado oferece mais flexibilidade e menos riscos.
Promessa de curto prazo, impacto de longo prazo
William Waack foi direto ao criticar a imposição legal da redução da jornada. Para ele, obrigar todos os setores a seguir a mesma regra significa prometer ganhos imediatos sem avaliar as consequências futuras.
A economia brasileira não funciona de forma uniforme. Portanto, dependendo do setor, a redução de horas sem corte salarial pode gerar inflação. Além disso, pode aumentar a rotatividade da mão de obra. Em outros casos, incentiva a substituição de trabalhadores por automação. Há ainda o risco de encolhimento de empresas que não conseguem absorver os custos.
Apelo eleitoral prevalece
Apesar dos alertas, Waack observou que o apelo eleitoral da proposta fala mais alto. Em um ambiente pré-eleitoral, prometer menos trabalho com o mesmo salário atrai apoio rapidamente.
No entanto, como destacou o jornalista, os custos reais dessa escolha raramente aparecem no discurso político. Eles surgem depois, quando a conta chega para a economia e para o próprio trabalhador.
O editorial do Jornal WW expõe, assim, o contraste entre o discurso político e a complexidade econômica do país. A mensagem é clara: decisões guiadas pelo calendário eleitoral podem gerar efeitos que vão muito além das promessas de campanha.




