Um vídeo recente do doutorando da USP e influenciador de esquerda Sávio Di Maio trouxe à tona um debate importante — e muitas vezes mal compreendido — sobre identidade racial no Brasil. Diferente do que pode parecer à primeira vista, Sávio não inicia o vídeo defendendo uma posição pessoal, mas reagindo à fala de uma entrevistada que afirma: “eu não me sinto à vontade de me autodeclarar uma pessoa parda”.
A partir dessa declaração, ele constrói uma argumentação crítica, alinhada a uma visão mais consolidada dentro de certos setores do movimento negro: a de que a categoria “pardo” estaria historicamente ligada a um projeto de diluição da identidade negra e, portanto, deveria ser superada em favor de uma identificação como negro — inclusive como um ato político.
É justamente essa construção que merece um contraponto mais atento.
O ponto de partida: a crítica à identidade parda
Ao reagir à fala da entrevistada, Sávio associa o desconforto com a identidade parda a um processo histórico mais amplo. Ele menciona a ideia de “falsa democracia racial” e o projeto de embranquecimento, sugerindo que a categoria pardo teria servido — e ainda serviria — para fragmentar a população negra.
Esse argumento tem base em debates acadêmicos e históricos. No entanto, o problema não está no diagnóstico em si, mas na forma como ele é extrapolado para o presente.
Ao tratar a identidade parda como um resquício de um projeto político, corre-se o risco de deslegitimar a experiência contemporânea de quem se reconhece dessa forma.
Quando o react vira prescrição
Um dos momentos centrais da argumentação de Sávio é quando ele destaca que há um incentivo para que pessoas pardas se identifiquem como negras “como um ato político”. A ideia, segundo essa linha de pensamento, é fortalecer a luta antirracista por meio da ampliação dessa categoria.
Mas aqui surge um ponto crítico: há uma diferença importante entre propor uma estratégia e estabelecer uma norma implícita.
Quando o discurso passa a sugerir que a identidade parda deve ser abandonada em favor de outra, ele deixa de ser apenas analítico e se torna prescritivo. E é nesse ponto que o debate precisa de mais cuidado.
A complexidade que o próprio argumento reconhece
Curiosamente, ao longo do vídeo, o próprio Sávio reconhece elementos que complicam sua tese. Ele afirma, por exemplo, que a sociedade brasileira não foi formada apenas por violência e que há múltiplas dinâmicas na formação da população parda.
Além disso, ele admite que “muita gente parda não se entende como negra e não quer apagar a própria experiência de mestiçagem”.
Esses pontos são fundamentais — e levantam uma questão inevitável: se a realidade é diversa e plural, por que a solução proposta caminha na direção da uniformização?
O risco de transformar identidade em ferramenta única
A crítica à democracia racial e ao embranquecimento é legítima e necessária. No entanto, transformar a identidade racial em uma ferramenta exclusivamente política pode gerar distorções.
Nem toda pessoa parda se vê como parte de uma identidade negra unificada — e isso não significa, automaticamente, alienação ou adesão a um projeto histórico problemático.
Pelo contrário: pode significar apenas que sua experiência não cabe perfeitamente nas categorias propostas.
Entre reconhecimento e imposição
Ao longo do react, fica evidente uma tensão: de um lado, a tentativa de construir uma identidade coletiva forte para enfrentar o racismo; de outro, a dificuldade de acomodar experiências que não se encaixam totalmente nessa proposta.
O problema surge quando essa tensão é resolvida não pelo reconhecimento da diversidade, mas pela tentativa de enquadramento.
Sugerir que a identidade parda precisa ser “superada” pode acabar reproduzindo uma lógica semelhante à que se critica: a de dizer às pessoas como elas devem se entender.
Conclusão: o debate precisa de mais escuta
O vídeo de Sávio Di Maio cumpre um papel importante ao trazer à tona discussões históricas e políticas relevantes. No entanto, seu react também revela um limite frequente em certos debates contemporâneos: a dificuldade de lidar com a complexidade sem recorrer à simplificação.
A identidade parda não é apenas um conceito — é uma vivência real, plural e significativa para milhões de brasileiros.
Se o objetivo é fortalecer o debate racial no país, talvez o caminho não seja reduzir essa complexidade, mas justamente o contrário: reconhecê-la, escutá-la e incorporá-la de forma mais honesta.
Porque, no fim das contas, identidade não é algo que se corrige — é algo que se compreende.





