O debate sobre a escravidão e suas consequências históricas costuma despertar emoções fortes — e não sem motivo. Trata-se de um dos capítulos mais dolorosos da história da humanidade. No entanto, compreender esse fenômeno exige ir além de explicações simplistas e encarar sua complexidade histórica.
O antropólogo e historiador Antônio Risério, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), propõe uma reflexão que contrasta com a narrativa mais difundida: a ideia de que o tráfico de escravizados foi exclusivamente um empreendimento europeu. Segundo ele, embora os europeus tenham desempenhado um papel central na expansão e institucionalização da escravidão nas Américas, a dinâmica do tráfico envolvia também agentes africanos.
O papel das elites africanas
De acordo com Risério, diversas sociedades africanas já possuíam sistemas internos de escravidão antes da chegada dos europeus. Mais do que isso, elites políticas e militares africanas participaram ativamente do comércio transatlântico de pessoas escravizadas. Em muitos casos, prisioneiros de guerra — capturados em conflitos entre reinos e etnias — eram vendidos a comerciantes europeus.
Um exemplo citado por ele é o antigo Reino do Daomé (atual Benin), que teria enviado emissários ao Brasil no século XIX com o objetivo de negociar diretamente o monopólio da exportação de escravizados. Esses dados aparecem em registros históricos, como o livro Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia, do historiador Pierre Verger, que documenta as relações comerciais entre África e Brasil.
Europeus: compradores e protagonistas
Risério também destaca que, ao contrário do imaginário popular, os europeus nem sempre realizavam incursões diretas no interior do continente africano para capturar pessoas. Na maior parte dos casos, eles estabeleciam feitorias no litoral e compravam escravizados de intermediários africanos.
No entanto, é fundamental não perder de vista que foram as potências europeias que organizaram, financiaram e expandiram o sistema transatlântico em escala massiva. Foram elas que criaram a demanda, estruturaram as rotas comerciais e lucraram enormemente com o trabalho forçado nas colônias.
Uma história sem simplificações
A fala de Risério provoca reflexão, mas também exige cuidado na interpretação. Reconhecer a participação de elites africanas no tráfico não significa diluir ou relativizar a responsabilidade dos sistemas coloniais europeus. Pelo contrário: trata-se de entender que o fenômeno foi resultado de uma rede complexa de interesses econômicos, políticos e sociais.
A escravidão moderna, como se desenvolveu nas Américas, foi profundamente marcada pelo racismo e pela lógica de exploração colonial europeia. Ainda assim, compreender suas múltiplas dimensões — incluindo as dinâmicas internas do continente africano — é essencial para um debate histórico mais honesto e completo.
Por que isso importa hoje?
Discussões sobre “reparação histórica” e responsabilidade ainda são centrais no mundo contemporâneo. E justamente por isso, simplificações podem mais confundir do que esclarecer.
Conhecer a história em profundidade não serve para apagar culpas ou transferi-las, mas para compreender como estruturas de poder se formaram e como seus efeitos ainda reverberam. Só a partir desse entendimento mais amplo é possível construir debates mais sólidos, informados e produtivos.





