Durante décadas, o mundo assistiu à África do Sul se transformar no maior símbolo da luta contra a segregação racial. O país que derrotou o apartheid, liderado por Nelson Mandela, tornou-se referência mundial na defesa da igualdade. No entanto, três décadas depois, uma nova crise chama atenção do mundo: agora, africanos estão perseguindo outros africanos.
Nas últimas semanas, milhares de imigrantes foram obrigados a deixar suas casas após uma escalada de protestos e ataques xenófobos em diversas cidades sul-africanas. Além disso, muitos buscaram abrigo em centros de acolhimento improvisados, enquanto outros decidiram retornar aos seus países de origem por medo da violência.
Quem são esses imigrantes?
Ao contrário do que muita gente imagina, a maioria não veio da Europa, dos Estados Unidos ou da Ásia.
Na verdade, são africanos.
Grande parte dos estrangeiros que vivem na África do Sul nasceu em países vizinhos, como Zimbábue, Moçambique, Lesoto, Maláui, Essuatíni, Namíbia, Nigéria e República Democrática do Congo. Em outras palavras, pessoas que cruzaram fronteiras em busca de emprego, segurança e melhores condições de vida.
O discurso é conhecido
Os manifestantes repetem argumentos já vistos em diversas partes do planeta:
“Os estrangeiros estão roubando nossos empregos.”
“Eles sobrecarregam os serviços públicos.”
“São responsáveis pelo aumento da criminalidade.”
Essas frases poderiam ser ouvidas em protestos na Europa, nos Estados Unidos ou na América Latina. Agora, elas também ecoam nas ruas da maior economia africana.
Os números contam outra história
Segundo dados oficiais, os imigrantes representam menos de 4% da população da África do Sul. Mesmo assim, tornaram-se o principal alvo da insatisfação popular.
Especialistas apontam que o verdadeiro problema está em fatores internos: desemprego acima de 30%, crescimento econômico lento, corrupção, serviços públicos deteriorados e décadas de desigualdade.
Portanto, culpar os estrangeiros pode ser politicamente conveniente, mas está longe de resolver as causas estruturais da crise.
A ironia da história
Existe uma enorme contradição nesse cenário.
Durante o apartheid, milhões de sul-africanos negros encontraram apoio político e diplomático em diversos países africanos. Hoje, porém, muitos dos cidadãos dessas mesmas nações são recebidos com hostilidade quando tentam construir uma vida na África do Sul.
Dessa forma, a história parece dar uma volta inesperada.
Quando a política encontra um inimigo
Analistas afirmam que grupos políticos vêm explorando o sentimento anti-imigração em meio às disputas eleitorais.
Afinal, em períodos de crise, encontrar um culpado costuma ser uma estratégia eficiente para canalizar a revolta popular.
Consequentemente, os estrangeiros acabam se tornando o alvo mais fácil.
Entretanto, isso não significa que sejam responsáveis pelos problemas estruturais do país, mas apenas que possuem menor capacidade de reação política e institucional.
Uma lição que ultrapassa a África
A crise sul-africana revela um fenômeno muito maior.
Antes de tudo, ela mostra que a xenofobia não depende da cor da pele.
Da mesma forma, não depende do continente nem da origem étnica.
Pelo contrário, ela costuma surgir quando crises econômicas, desemprego e frustração coletiva encontram um grupo vulnerável para responsabilizar.
Hoje são zimbabuanos, moçambicanos e malauianos sendo atacados na África do Sul.
Amanhã, por outro lado, o alvo pode ser outro, em qualquer parte do mundo.
Por fim, fica uma pergunta inevitável:
Se até africanos passaram a rejeitar outros africanos por serem estrangeiros, será que o problema sempre foi apenas a imigração?
Ou será que, diante de crises profundas, a sociedade tende a procurar um culpado mais fácil em vez de enfrentar as verdadeiras causas dos seus problemas?





