Depois de defender a taxação das compras internacionais como proteção à indústria e aos empregos brasileiros, o governo Lula mudou de posição e agora tenta acabar com a cobrança. O detalhe é que a mudança acontece em pleno ano eleitoral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora pede ao Congresso Nacional que aprove o fim da chamada “taxa das blusinhas”.
Em vídeo divulgado nesta terça-feira, 18 de agosto, Lula afirmou estar “muito otimista” com a aprovação da Medida Provisória que acaba com o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida precisa ser aprovada até 8 de setembro para continuar valendo. Caso contrário, a cobrança volta. (Folha de S.Paulo)
A cena poderia parecer apenas uma boa notícia para o consumidor.
Mas existe um detalhe que Lula parece convenientemente esquecer: seu próprio governo ajudou a construir, defender e manter essa taxação.
Agora, diante da proximidade das eleições, o mesmo presidente que sancionou a lei quer aparecer como defensor do consumidor.
A taxa não apareceu do nada
É preciso colocar os fatos em ordem.
A chamada “taxa das blusinhas” foi aprovada pelo Congresso em 2024 e sancionada por Lula. A cobrança de 20% para compras internacionais de até US$ 50 entrou em vigor em agosto daquele ano. (Folha de S.Paulo)
Portanto, seria incorreto afirmar que Lula criou sozinho a taxa.
No entanto, também seria errado tentar apresentar o governo Lula como simples espectador da decisão.
A cobrança contou com o apoio do Ministério da Fazenda e foi defendida pelo governo como uma forma de combater a concorrência considerada desleal de plataformas estrangeiras, especialmente chinesas. (Folha de S.Paulo)
Em outras palavras, o governo Lula não apenas conviveu com a taxa: seus principais integrantes defenderam a necessidade dela.
Haddad defendia a cobrança
O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi um dos principais defensores da taxação.
Na época, o argumento apresentado pelo governo era o de que empresas brasileiras não poderiam competir em condições de igualdade se produtos importados recebessem tratamento tributário muito mais favorável.
Haddad chegou a defender a ideia de garantir “concorrência igual para todo mundo”.
O raciocínio era claro: se uma empresa brasileira paga impostos para vender seu produto, o importado também deveria ser tributado.
Até aí, pode-se concordar ou discordar da política.
O problema surge agora.
Se a taxa era necessária para garantir uma concorrência justa, por que o governo decidiu acabar com ela?
Padilha também defendia a “igualdade”
A defesa não ficou restrita ao Ministério da Fazenda.
Alexandre Padilha, então ministro das Relações Institucionais, também sustentou a cobrança. O argumento era que “quem produz fora” deveria pagar o mesmo que “quem produz no Brasil”.
Assim, a taxação era apresentada como uma questão de justiça tributária.
O consumidor, entretanto, recebeu uma consequência bastante concreta: comprar um produto estrangeiro ficou mais caro.
Na prática, a política que o governo apresentava como proteção à indústria também atingia diretamente quem comprava pela internet.
Alckmin defendia a taxa em abril de 2026
A contradição fica ainda mais evidente quando se observa o calendário.
Em 2 de abril de 2026, Geraldo Alckmin ainda defendia a cobrança. Segundo declarações registradas pelo Poder360, o vice-presidente classificava a taxa como uma medida de “defesa do emprego e da renda da população brasileira”.
Poucas semanas depois, o governo mudou de posição.
Em maio, Lula assinou a MP que zerou o imposto federal sobre compras de até US$ 50. Agora, em agosto, o presidente intensifica a pressão para que o Congresso transforme a mudança em definitiva. (UOL Economia)
Então fica a pergunta:
o que mudou entre abril e maio?
A indústria brasileira deixou de precisar de proteção?
A concorrência internacional deixou de ser um problema?
Os empregos passaram a estar protegidos de outra maneira?
Ou a taxa simplesmente se tornou politicamente inconveniente?
O governo descobriu que o imposto é impopular?
Existe uma explicação que o governo certamente não gostaria de ouvir.
A “taxa das blusinhas” é impopular.
Para milhões de consumidores, não importa a justificativa técnica apresentada por ministros. O que importa é que o preço final da compra aumenta.
Consequentemente, acabar com uma cobrança impopular pode ser uma medida extremamente atraente em ano eleitoral.
E é justamente isso que torna o episódio politicamente delicado.
A Folha de S.Paulo informou que o vídeo divulgado por Lula em 18 de agosto foi gravado durante a produção de material de campanha. A reportagem também registrou que a medida precisa passar pelo Congresso antes de 8 de setembro, caso contrário a cobrança retorna. (Folha de S.Paulo)
Não é necessário afirmar que a decisão foi tomada exclusivamente por motivos eleitorais.
Porém, é perfeitamente legítimo perguntar por que uma política defendida em nome da indústria, do emprego e da concorrência passou a ser abandonada justamente em um ano de eleição.
Lula agora quer o crédito pelo fim da taxa
É aqui que a crítica ao presidente fica mais contundente.
Durante a discussão da taxação, o governo apresentou uma justificativa econômica.
Falou-se em proteger empresas brasileiras.
Defendeu-se a concorrência.
Argumentou-se que era necessário combater vantagens tributárias de produtos estrangeiros.
Agora, o discurso mudou completamente.
Lula aparece nas redes sociais defendendo o consumidor e classificando o fim da taxa como uma questão de justiça.
O presidente quer o crédito pela solução de um problema que seu próprio governo ajudou a criar.
Esse é o ponto que não pode ser apagado da memória do eleitor.
A taxa foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Lula. O Ministério da Fazenda apoiou a política. Integrantes do governo defenderam seus objetivos. Durante quase dois anos, a cobrança permaneceu em vigor.
Agora, o governo recua.
Não é apenas uma mudança de opinião
Governos podem mudar de ideia.
Aliás, reconhecer que uma política não funcionou como esperado pode ser sinal de maturidade.
Entretanto, uma mudança dessa magnitude exige explicações.
Se a taxa prejudicava o consumidor, por que foi defendida?
Se a cobrança era necessária para proteger a indústria, por que agora deixou de ser?
Se a concorrência internacional era considerada desleal, o que aconteceu para que o governo abandonasse esse argumento?
Além disso, existe uma questão financeira.
A cobrança representava arrecadação para o governo. Ainda assim, o Planalto decidiu abrir mão do imposto federal sobre as compras de até US$ 50.
Enquanto isso, a equipe econômica está mobilizada para garantir que a MP seja aprovada. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quarta-feira, 19 de agosto, que o governo vai se empenhar para aprovar a medida no Congresso. (UOL Economia)
A proximidade da eleição torna tudo mais suspeito
O momento da mudança é impossível de ignorar.
Estamos em agosto de 2026.
A eleição está no horizonte.
A medida que elimina uma cobrança extremamente impopular precisa ser aprovada antes de setembro.
Caso contrário, a taxa volta a valer justamente durante o período eleitoral. A própria cobertura da Folha registra que uma eventual volta da cobrança poderia ocorrer a menos de um mês do primeiro turno. (Folha de S.Paulo)
Diante disso, não é exagero questionar a estratégia política.
Por que esperar até agora para acabar com a taxa?
Se o governo realmente acreditava que a cobrança era injusta para o consumidor, por que não acabou com ela antes?
Por que a mudança acontece justamente quando o eleitor começa a decidir seu voto?
São perguntas legítimas.
O brasileiro não pode ser tratado como se não tivesse memória
O consumidor pode comemorar o fim da cobrança.
Aliás, quem compra pela internet tem todo o direito de querer pagar menos impostos.
Mas uma coisa é defender o fim da taxa.
Outra é tentar apagar quem a defendeu anteriormente.
A história está registrada.
O Congresso aprovou a cobrança. Lula sancionou. O governo apoiou. Ministros defenderam. A taxa entrou em vigor. O consumidor pagou.
Agora, o governo mudou de posição.
Em vez de fingir que a taxa nunca foi defendida pelo Planalto, seria mais honesto reconhecer:
“Nós defendemos essa política, acreditávamos que ela era necessária, mas concluímos que foi um erro e decidimos corrigi-lo.”
Isso seria coerência.
O que não convence é transformar uma mudança de rumo em propaganda política sem explicar por que os argumentos utilizados anteriormente deixaram de valer.
De vilão a herói
A ironia é evidente.
Primeiro, o governo cria e apoia uma política que encarece as compras internacionais.
Depois, ministros defendem a cobrança como proteção à indústria e aos empregos.
Mais tarde, a taxa se torna impopular.
Finalmente, em ano eleitoral, Lula aparece defendendo seu fim.
O imposto muda. O discurso muda. A estratégia muda. Mas a memória do eleitor não deveria mudar.
O brasileiro tem o direito de perguntar se está diante de uma correção necessária de uma política equivocada ou de uma operação política para transformar um recuo em benefício eleitoral.
No fim das contas, o ponto central não é ser contra ou a favor da taxação.
A verdadeira questão é a coerência.
Se a “taxa das blusinhas” era boa para proteger o emprego, a indústria e a concorrência brasileira, como dizia o governo, por que ela se tornou ruim justamente agora?
E se era ruim para o consumidor desde o começo, por que Lula e seus ministros passaram tanto tempo defendendo-a?
Essa resposta pertence ao governo.
Ao eleitor, cabe lembrar.
Porque quem cria uma cobrança, defende a cobrança, sanciona a cobrança e depois volta atrás não pode esperar que o cidadão esqueça a primeira parte da história só porque chegou a hora de anunciar a segunda.





