A crítica lançada por André Ventura contra o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva — chamando-o de “bandido” durante a convenção nacional do Chega — não surgiu como mera provocação eleitoral. Pelo contrário, sua declaração, que ecoou instantaneamente pela direita europeia, evidencia um ponto inevitável: Lula é um líder cuja trajetória pública continua indissociavelmente ligada a alguns dos maiores escândalos de corrupção da história recente do Brasil.
Além disso, o episódio demonstra como o passado político do presidente brasileiro permanece ativo no imaginário internacional, alimentando críticas mesmo anos após as decisões judiciais que alteraram o cenário dos processos.
É verdade que seus defensores insistem que todas as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. No entanto, também é fato que as anulações ocorreram por questões processuais e de competência judicial. Consequentemente, isso não apagou o conteúdo das investigações, as delações premiadas, as evidências debatidas nem o impacto público desses casos. Por isso, o passado de Lula continua a ser usado como ferramenta política, tanto no Brasil quanto fora dele.
Um legado que não desaparece
Quando Ventura classifica Lula como símbolo de degradação institucional, ele aciona memórias de episódios que, goste-se ou não, marcaram profundamente a política brasileira. Entre eles:
- O tríplex do Guarujá, frequentemente chamado de exemplo de relações suspeitas entre governo e empreiteiras.
- O sítio de Atibaia, cuja reforma teria sido financiada por empresas envolvidas no maior esquema de corrupção do país.
- As suspeitas envolvendo doações ao Instituto Lula, citadas por procuradores como possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro.
- O amplo contexto da Operação Lava Jato, que revelou um sistema que misturava vantagem política, contratos públicos e influência partidária.
Dessa forma, para uma parcela significativa da opinião pública, esses episódios se tornaram sinônimos de um modelo político que confundiu interesses partidários e estrutura do Estado. Assim, líderes como Ventura encontram terreno fértil para reforçar suas críticas.
Por que a crítica reverbera na Europa?
A direita europeia não enxerga Lula apenas como um presidente de esquerda. Pelo contrário, vê nele o símbolo de um tipo de gestão que mistura clientelismo, relações nebulosas e escândalos que abalaram instituições democráticas.
Além disso, muitos partidos conservadores utilizam exemplos externos para ilustrar seus próprios argumentos internos. Portanto, Lula funciona como um alerta internacional, reforçando a narrativa de que governos alinhados à esquerda podem falhar em suas promessas éticas.
Consequentemente, a fala de Ventura viralizou rapidamente. Ela não apenas reflete o pensamento de parte da população portuguesa, mas também alimenta o debate ideológico que se espalha pelo continente. Entretanto, mais do que um ataque pessoal, a declaração funciona como estratégia política.
O incômodo político que persiste
Criticar o tom de Ventura não altera um fato essencial: Lula é um chefe de Estado cuja biografia permanece marcada por escândalos, mesmo que revertidos judicialmente. Para seus críticos, essa marca jamais desaparecerá. Por outro lado, seus aliados interpretam tudo como fruto de perseguição judicial.
Ainda assim, a esfera pública não se baseia apenas em decisões legais. Ela se alimenta da memória coletiva, que raramente é suave ou tolerante. E essa memória, justa ou não, é implacável.
Portanto, Ventura apenas ampliou aquilo que já existia: uma percepção consolidada — e internacional — de que Lula carrega consigo um legado difícil de ser ignorado.


