O ano de 2026 vem sendo marcado por grandes movimentações no cenário geopolítico, tanto no plano doméstico quanto internacional. Nesse contexto, a Igreja no Brasil, de forma antecipada e estratégica, já sinalizava, desde a definição da temática da Campanha da Fraternidade 2026, que, independentemente da ideologia no poder, a sociedade brasileira enfrenta uma verdadeira hecatombe social.
Falamos de um país continental, com baixa densidade populacional, cerca de 25 habitantes por quilômetro quadrado, e que, ainda assim, convive com um grave problema de má distribuição de moradia digna. Isso não é mero erro de gestão ou falha sistêmica pontual. É, na prática, um modelo historicamente estruturado que fomenta a miséria como subproduto de um sistema concentrador.
Esse cenário não nasceu ontem. Ele remonta à formação jurídica e econômica do país. A instituição da Lei de Terras, em meados do século XIX, rompeu com a lógica da posse como meio de aquisição de propriedade, adotada em outras nações, e consolidou um modelo excludente, baseado na compra formal da terra. Na prática, isso criou enormes vazios fundiários e concentrou o acesso à terra nas mãos de quem já detinha capital e poder político.
Como se não bastasse, a chamada abolição da escravidão foi conduzida sem qualquer estratégia de integração social ou econômica dos libertos. Foram lançados à própria sorte, sem acesso à terra, educação ou oportunidades. O resultado foi previsível: a formação de bolsões de pobreza, verdadeiros guetos urbanos e rurais, onde as condições de vida, em muitos casos, se mostraram ainda mais degradantes.
Esse passivo histórico gerou cicatrizes profundas que atravessam gerações. E a realidade é dura: nenhuma política pública, até hoje, conseguiu endereçar o problema na raiz. O que vemos são medidas paliativas, que tratam sintomas, mas não enfrentam o modelo estrutural que perpetua a desigualdade.
Com o advento da República, a elite comercial-burguesa finalmente consolida sua ascensão ao poder de forma praticamente absoluta, já sem qualquer elemento moderador relevante. O resultado? Um redesenho institucional que priorizou eficiência econômica para poucos, sem qualquer compromisso real com coesão social.
Nem mesmo as tentativas de engenharia social, como os projetos positivistas de cidades planejadas, conseguiram resolver o desalinhamento estrutural do país. Pelo contrário: muitas dessas iniciativas ampliaram distorções. A própria construção de Brasília, vendida como símbolo de modernidade, já nasce como um projeto desconectado da realidade nacional, uma capital funcional no papel, mas socialmente fragmentada desde a origem.
Da mesma forma, movimentos como a Marcha para o Oeste ou a incorporação do Acre ao território nacional foram estratégias de expansão que, embora relevantes do ponto de vista geopolítico, não resolveram o core do problema: a distribuição real de oportunidades. Em muitos casos, apenas deslocaram o problema no mapa, criando novos polos de desigualdade e pressão ambiental.
Casos emblemáticos escancaram isso. Serra Pelada não foi um acidente, foi sintoma. Um retrato cru de um país onde a promessa de ascensão individual substitui qualquer estrutura organizada de desenvolvimento. Um ambiente onde milhares disputam migalhas enquanto poucos capturam valor real.
No campo econômico, as sucessivas crises inflacionárias do século XX aprofundaram ainda mais esse cenário. Aqui entra uma leitura cirúrgica de Ignácio Rangel, que enxergava o Brasil como uma economia dual, marcada por ciclos de expansão e estrangulamento, onde o desenvolvimento não ocorre de forma linear, mas sim aos trancos, sempre limitado por gargalos estruturais, especialmente no acesso à terra e à moradia.
Rangel já apontava que o problema habitacional brasileiro não era apenas uma questão de oferta, mas de estrutura econômica: a urbanização acelerada, sem planejamento e sem base produtiva sólida, gerava cidades inchadas, com periferias que cresciam mais rápido do que a capacidade do Estado e do mercado de absorver essa população de forma digna. Em outras palavras, a moradia precária não era exceção, mas consequência da lógica do modelo.
Quando avançamos para a estabilização monetária com o Plano Real, há um ganho inegável de previsibilidade, com uma lógica de paridade com o dólar, inserindo o Brasil de forma ainda mais dependente na dinâmica internacional. Esse movimento precisa ser lido junto com uma transformação global iniciada lá atrás, em Acordos de Bretton Woods, quando o padrão ouro foi substituído por um sistema baseado no dólar.
Esse shift não é detalhe técnico, é mudança de jogo. Ele institucionaliza uma lógica onde economias periféricas, como a brasileira, operam sob constante pressão cambial. O efeito prático é direto: produtos com componentes dolarizados encarecem, custos produtivos sobem e, no fim da cadeia, quem paga a conta é a força de trabalho.
Aqui a engrenagem fecha: valorização artificial de ativos, desvalorização contínua do trabalho e ampliação da mais-valia em escala sistêmica. O custo de vida sobe, o acesso à moradia se deteriora e o ciclo de exclusão se retroalimenta.
É exatamente aqui que o problema escala e sai do controle. Quando insumos básicos da construção passam a ser, na prática, dolarizados, aço, cimento, energia, frete (recentemente encarecido pelo aumento do diesel, mediante fechamento do Estreito de Ormuz), você injeta pressão cambial direta no custo da moradia. O pipeline inteiro encarece. E, em vez de aliviar, a legislação cria mais fricção: burocracia, insegurança jurídica, custo cartorial, travas urbanísticas mal calibradas. Resultado? A classe trabalhadora fica fora do jogo antes mesmo de sentar à mesa.
Na outra ponta, o país segue empilhando risco fiscal, onde a política de dívida pública ganha tração agressiva, e a relação dívida/PIB encosta na casa de 100%. Isso comprime o espaço para política habitacional efetiva, eleva prêmio de risco, pressiona juros e encarece crédito de longo prazo, exatamente o insumo-chave para viabilizar moradia.
E ainda tem o fator confiança. Escândalos como os envolvendo o Banco Master acendem alerta sistêmico. O mercado lê isso como risco de contágio, reprecifica ativos e aperta ainda mais as condições financeiras. A cadeia é conhecida: crédito mais caro, menos oferta, mais restrição. Um cenário que, guardadas as proporções, lembra a lógica de alavancagem e colapso de crédito vista na Crise do Subprime.
No nível micro, o retrato é cruel: o “sonho da casa própria” vira um passivo de 360 meses, uma vida inteira para acessar um direito básico. Mesmo com juros subsidiados, a conta fecha mal. A população financia o sistema duas vezes: via prestação e via imposto. É a leitura clássica de Celso Furtado, uma estrutura em que o esforço coletivo sustenta a acumulação no topo, enquanto a base carrega o custo, construtoras privadas recebem do governo e entregam moradias cuja qualidade provavelmente estarão de pé quando a última parcela dos mesmos seja paga.
E aqui está o ponto final, sem firula: quando as vozes dos profetas se calam, as pedras falam. E, no Brasil, as pedras da moradia popular gritam. Gritam por portas abertas, por frontões que acolham, por lares que existam de fato, não como planilha, mas como vida concreta.
Cristo veio habitar entre nós. Ainda assim, como em Belém, não havia lugar. A ironia dura é que, na sociedade brasileira que se diz cristã, seguimos menos propensos a construir lares do que o Egito Antigo que acolheu o Filho de Deus em seu êxodo. Aqui, muito provavelmente, Ele seria morto e ascenderia aos céus antes mesmo de quitar o próprio financiamento habitacional. Bem que Ele havia prometido que na “Casa do Pai haveria muitas moradas.”
Matheus Andrade
Economista





