Em caminhada no Recife, Lula exibiu um cartaz pelo “fim das bets” ao lado de João Campos. A cena chama atenção pelo histórico recente dos dois grupos políticos com o mercado de apostas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve no Recife nesta sexta-feira (25), em caminhada ao lado de João Campos (PSB), candidato ao Governo de Pernambuco.
Logo no início do ato, os dois exibiram um cartaz com a frase “fim das bets”. A mensagem foi escrita por Lula com ajuda de João Campos.
Durante o discurso, o presidente criticou os clubes de futebol que dependem das receitas das casas de apostas.
“Os times de futebol não têm direito de querer sobreviver às custas da dívida do povo pobre que torce pro time.”
Lula também citou Flamengo e Corinthians. Segundo o presidente, os clubes precisam encontrar outras formas de financiamento.
Ao final, resumiu sua posição sobre o tema:
“Porque a bet vai acabar.”
A declaração, entretanto, ocorre depois de uma série de decisões tomadas pelo próprio governo Lula em relação ao setor.
O governo Lula regulamentou as bets
É importante fazer uma distinção.
As apostas de quota fixa não foram criadas pelo governo Lula. A modalidade já havia sido autorizada pela legislação aprovada em 2018.
O governo Lula, porém, teve papel central na regulamentação do mercado de apostas.
Em julho de 2023, o governo publicou a Medida Provisória 1.182/2023. A medida estabeleceu regras para as apostas esportivas e criou mecanismos de tributação para o setor.
Naquele momento, a justificativa apresentada pelo governo incluía a necessidade de regulamentar uma atividade que já existia. Também estava entre os objetivos aumentar a arrecadação e estabelecer regras para as empresas.
A MP previa uma tributação de 18% sobre a receita das empresas de apostas, descontados os prêmios pagos e o imposto de renda correspondente. Parte dos recursos seria destinada a áreas como seguridade social, esporte, educação e segurança pública.
O Congresso avançou com a regulamentação. Em dezembro de 2023, Lula sancionou a Lei 14.790/2023, que estabeleceu as regras para exploração das apostas de quota fixa no país.
Portanto, a história precisa ser contada com precisão.
Lula não criou as bets. Mas o governo Lula regulamentou o setor, criou regras para sua operação e estabeleceu uma estrutura de tributação.
A estratégia naquele momento não era acabar com o mercado.
Era regulamentar e arrecadar.
A situação fica ainda mais curiosa quando entra João Campos
A presença de João Campos ao lado de Lula torna o episódio ainda mais interessante.
Durante sua gestão como prefeito do Recife, Campos encaminhou à Câmara Municipal uma proposta que alterou a tributação de determinadas atividades relacionadas a loterias e apostas.
Em 2025, a Prefeitura propôs reduzir de 5% para 2% o ISS sobre serviços relacionados à distribuição e venda de produtos de loteria.
A Câmara Municipal aprovou a mudança.
A legislação municipal passou a estabelecer a nova alíquota para atividades enquadradas na norma. O material oficial do Recife também registrou a redução tributária.
A justificativa apresentada por João Campos foi econômica.
Segundo o então prefeito, a redução poderia atrair empresas para Recife e ampliar a arrecadação municipal.
Em declarações posteriores, Campos defendeu novamente a medida. Ele argumentou que a atividade poderia gerar mais receitas para o município.
É justamente aí que aparece a contradição apontada pelos críticos.
Como defender o fim das bets e, ao mesmo tempo, ter adotado uma política tributária específica para atrair empresas desse setor?
As bets também apareceram no Carnaval do Recife
A presença das empresas de apostas não ficou restrita à discussão tributária.
Durante o Carnaval do Recife, empresas do setor apareceram associadas a eventos e ações publicitárias.
A Esportes da Sorte, por exemplo, foi registrada como patrocinadora do Carnaval do Recife em 2025, segundo reportagens publicadas na imprensa.
Também houve publicidade de empresas de apostas em parques administrados por concessionárias.
Nesse caso, existe uma diferença importante.
Não se pode atribuir automaticamente à Prefeitura toda publicidade colocada por uma empresa privada ou concessionária. A própria Prefeitura afirmou que o modelo de concessão permitia a captação de patrocínios privados.
Ainda assim, os episódios mostram que as bets faziam parte do ambiente comercial e publicitário do Recife durante a gestão de João Campos.
De regulamentar e arrecadar a defender o fim
O contraste fica mais evidente quando os acontecimentos são colocados em sequência.
Em 2023, o governo Lula regulamentou o mercado de apostas.
A legislação criou regras para as empresas e estabeleceu uma estrutura de tributação.
Em 2025, a Prefeitura do Recife reduziu a alíquota do ISS aplicável a determinadas atividades relacionadas a loterias e apostas.
No mesmo período, empresas do setor estiveram presentes em eventos e espaços da cidade por meio de publicidade e patrocínios.
Agora, em 2026, Lula aparece no Recife segurando um cartaz com a frase “fim das bets”.
João Campos está ao lado dele.
A mudança de discurso levanta uma pergunta simples:
O que mudou?
A resposta pode estar na avaliação do impacto social das apostas. Lula tem argumentado que as bets provocam endividamento e problemas entre pessoas de baixa renda.
Também é possível defender que a experiência da regulamentação mostrou problemas que não eram totalmente conhecidos em 2023.
Essa é uma justificativa possível para uma mudança de política pública.
Mas existe outra questão que merece ser feita.
Se o setor precisava ser combatido, por que a estratégia inicial foi regulamentá-lo e tributá-lo?
A proximidade da eleição também faz parte do contexto
A caminhada aconteceu em 25 de setembro, poucos dias antes do primeiro turno das eleições de 2026.
A votação está marcada para 4 de outubro.
São apenas nove dias de diferença.
Isso coloca o discurso sobre as bets dentro de um contexto eleitoral evidente. A pauta pode ser analisada tanto pelo seu conteúdo social quanto pela maneira como está sendo utilizada na campanha.
Não é necessário atribuir uma intenção específica a Lula ou João Campos para observar essa mudança.
Os fatos já são suficientes para estabelecer a sequência.
O governo Lula regulamentou as apostas em 2023.
A Prefeitura do Recife reduziu a alíquota municipal aplicada a determinadas atividades do setor em 2025.
Empresas de apostas apareceram em ações publicitárias e patrocínios na cidade.
Agora, às vésperas da eleição, Lula e João Campos defendem publicamente o “fim das bets”.
A palavra “hipocrisia” é uma avaliação política
É possível chamar essa mudança de discurso de hipocrisia.
Mas essa palavra representa uma avaliação política, e não um fato que possa ser comprovado da mesma maneira que uma lei, uma declaração ou uma votação.
O que pode ser documentado é a mudança de posição e de política pública.
Lula hoje defende o fim das bets. Em 2023, seu governo regulamentou o setor e estabeleceu mecanismos de arrecadação.
João Campos hoje aparece ao lado do presidente defendendo a pauta. Em sua gestão no Recife, porém, houve uma política municipal de redução do ISS para atividades relacionadas a loterias e apostas.
São fatos diferentes.
Cabe ao eleitor avaliar como essas decisões se encaixam.
No fim, a fotografia da caminhada mostra Lula e João Campos segurando um cartaz com duas palavras:
“Fim das bets.”
O histórico dos últimos anos, entretanto, mostra uma realidade bem mais complexa.





