Durante entrevista ao programa Canal Livre, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya detalhou como o Primeiro Comando da Capital deixou de movimentar cerca de R$ 12 milhões para alcançar um faturamento estimado em US$ 2 bilhões ao longo de duas décadas. Segundo ele, o crescimento da facção está diretamente ligado ao tráfico internacional de cocaína e aos mecanismos modernos de lavagem de dinheiro.
De acordo com Gakiya, o grande motor financeiro do PCC atualmente é o tráfico internacional de drogas, principalmente a exportação de cocaína para a Europa. A droga sai de países produtores como Bolívia, Peru e Colômbia, atravessa o Brasil e segue para mercados internacionais com uma valorização gigantesca.
Segundo o promotor, o quilo da cocaína é comprado por cerca de mil dólares nos países andinos e pode chegar à Europa valendo entre 35 mil e 40 mil euros. Em alguns casos, o valor alcança até 80 mil euros, como ocorreu recentemente na França. Já em mercados como Austrália, Nova Zelândia e países asiáticos, o preço pode atingir 150 mil dólares por quilo.
Gakiya afirmou que hoje não existe atividade criminosa mais lucrativa no mundo do que o tráfico internacional de cocaína. Ele explicou ainda que cerca de 60% da cocaína que passa pelo Brasil sai pelo Porto de Santos, enquanto aproximadamente 90% do tráfico internacional realizado a partir do país utiliza rotas marítimas.
Mas o crescimento do PCC não se resume apenas ao tráfico. Segundo o promotor, o grupo evoluiu para uma estrutura sofisticada de lavagem de dinheiro, utilizando operadores financeiros, doleiros, criptoativos e empresas de fachada para inserir recursos ilegais na economia formal.
Entre os setores utilizados pela organização estariam postos de combustíveis, fintechs, fundos de investimento e empresas abertas de forma facilitada. Gakiya chamou o fenômeno de “pejotização do crime”, criticando a facilidade para abertura de empresas sem fiscalização rigorosa.
O promotor afirmou que a facção procura setores com baixa fiscalização e pouca transparência. Um dos exemplos citados foram postos de gasolina, onde maquininhas de cartão seriam utilizadas para gerar vendas fictícias e justificar a entrada de dinheiro vindo do tráfico internacional.
Outro ponto destacado foi o crescimento das fintechs no Brasil. Segundo ele, embora essas plataformas tenham surgido para democratizar o acesso ao sistema financeiro, também acabaram sendo utilizadas pelo crime organizado. Gakiya revelou já ter investigado fintechs criadas por integrantes do PCC com o objetivo de lavar dinheiro da facção.
Na entrevista, o promotor também demonstrou preocupação com a facilidade de abertura de empresas no país. Segundo ele, criminosos conseguem criar dezenas ou até centenas de empresas em poucas horas, muitas vezes utilizando endereços inexistentes ou locais onde várias empresas funcionam apenas no papel.
As declarações reacendem o debate sobre segurança pública, fiscalização financeira e o avanço do crime organizado dentro de setores da economia formal brasileira. Para especialistas, o desafio vai além do combate policial tradicional e passa também pelo fortalecimento dos mecanismos de controle financeiro e inteligência econômica.





