Uma antiga pregação do Padre Léo, realizada em 2006, voltou a circular com força nas redes sociais justamente em um momento em que política, catolicismo e eleição presidencial voltaram a se encontrar no debate público brasileiro.
No vídeo, o sacerdote faz duras críticas ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e questiona a compatibilidade entre determinadas posições políticas do governo e aquilo que ele entendia como princípios da fé católica.
“Eu não me conformo de um homem feito Luiz Inácio Lula da Silva”, afirma Padre Léo no trecho que voltou a viralizar.
Em seguida, o sacerdote relembra a trajetória de Lula e diz que o presidente poderia ser um exemplo de superação para o país, mas faz uma crítica contundente à sua atuação política.
“Um homem que deveria se transformar num modelo de luta e de garra está se transformando num instrumento do encardido para provar leis dessa qualidade”, declarou.
Padre Léo também afirma que, diante das propostas que estavam sendo encaminhadas ao Congresso, Lula não teria seu respeito, sua admiração ou sua oração.
O registro não é de 2004, como algumas publicações recentes indicam. O acervo dedicado às pregações do sacerdote identifica o trecho como sendo de 2006 e relaciona a fala aos debates sobre aborto e comunismo.
O vídeo reaparece em meio à disputa sobre Nossa Senhora Aparecida
A volta da pregação às redes ocorre em um momento particularmente simbólico.
Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida tornou-se um dos principais assuntos da disputa eleitoral de 2026 depois que viralizou a informação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.
Não existe registro de declaração de Flávio nesse sentido. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, classificou a informação como “notoriamente inverídica” e determinou a remoção de conteúdos que apresentassem a alegação como verdadeira.
A origem da história foi relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que foi arquivado no ano seguinte. O projeto não era de Flávio Bolsonaro.
A polêmica, entretanto, ganhou enorme repercussão nas redes sociais. Segundo levantamento citado pela Folha, o campo progressista respondeu por 66% das 345 publicações analisadas sobre o tema e por 70% das interações avaliadas pelo instituto Democracia em Xeque.
Lula também entrou no debate
O episódio chegou diretamente ao discurso do presidente Lula.
Questionado sobre a informação envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, Lula foi perguntado pela jornalista Adriana Araújo se aquilo era uma fake news.
“Fake news, né, presidente?”, perguntou a jornalista.
Segundo a CNN, Lula respondeu: “Eu não sei se foi fake news.”
A declaração ganhou repercussão porque a Justiça Eleitoral já havia considerado falsa a associação entre Flávio Bolsonaro e uma suposta retirada do título de Padroeira do Brasil.
Enquanto a discussão avançava, aliados de Lula também passaram a utilizar o tema politicamente. A Folha registrou manifestações de nomes ligados ao campo governista, incluindo Geraldo Alckmin e Janja, que fizeram referências à tradição católica e a Nossa Senhora Aparecida.
Uma pregação de 2006 encontra uma eleição de 2026
É justamente nesse contexto que o vídeo de Padre Léo voltou a chamar atenção.
Há quase 20 anos, o sacerdote fazia uma crítica política a Lula utilizando como referência suas convicções religiosas. Agora, em 2026, uma nova disputa eleitoral coloca novamente Lula, o PT, o bolsonarismo e símbolos da fé católica no centro de uma batalha política nas redes.
A comparação, porém, precisa ser feita com cuidado: Padre Léo não estava falando sobre Flávio Bolsonaro nem sobre o atual episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Sua pregação ocorreu durante o primeiro governo Lula, anos antes da atual disputa presidencial.
O que aproxima os dois episódios é o papel que a religião ocupa no debate político.
Na fala antiga, Padre Léo questionava se determinadas decisões políticas eram compatíveis com aquilo que ele considerava os valores da fé católica. Em 2026, Nossa Senhora Aparecida passou a ser utilizada como elemento central de uma disputa eleitoral que envolveu uma informação falsa sobre Flávio Bolsonaro.
A política e a religião novamente se encontram
O caso mostra como referências religiosas podem ganhar enorme peso durante períodos eleitorais.
O debate sobre Nossa Senhora Aparecida chegou a registrar 1,3 milhão de publicações e 12,4 milhões de interações entre 23 e 27 de setembro, segundo monitoramento citado pela Agência Pública.
Ao mesmo tempo, a antiga fala de Padre Léo voltou a circular justamente por apresentar uma visão extremamente crítica sobre Lula e sua relação com determinadas pautas políticas.
Quase duas décadas depois da pregação, a frase do sacerdote reaparece em um cenário no qual Lula continua no centro da disputa presidencial e símbolos religiosos voltaram a ocupar espaço significativo na guerra de narrativas das redes sociais.
O episódio de Nossa Senhora Aparecida, por sua vez, permanece no centro de uma disputa judicial. Depois de André Mendonça determinar a retirada dos conteúdos considerados falsos, Flávio Dino havia suspendido a decisão. Na noite de 28 de setembro, porém, Luiz Fux restabeleceu a ordem de Mendonça e determinou que o caso seja levado ao plenário do STF.
Nesse ambiente, o vídeo de Padre Léo ganha uma nova dimensão nas redes: uma crítica feita contra Lula em 2006 voltou a circular em 2026, justamente quando uma disputa envolvendo Lula, Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida colocou novamente religião e política no centro da eleição brasileira.





