Na semana do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, artistas voltaram a se mobilizar em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A nova versão da música “Bora Lula” foi divulgada na terça-feira (20), com a participação de nomes conhecidos da música brasileira. A iniciativa, porém, reacende um debate sobre a atuação de artistas diante de problemas ambientais: a defesa da Amazônia recebe a mesma atenção quando o governo criticado por eles não está mais no poder?
A publicação do clipe foi noticiada pelo Poder360 nesta quarta-feira (21). Entre os artistas que participam da nova gravação estão Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Ivan Lins, Zélia Duncan, Paula Lima, Duda Beat, Luedji Luna e Baco Exu do Blues. A primeira versão da música já havia reunido nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Daniela Mercury.
O lançamento ocorre a cinco dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro. A música funciona como uma manifestação pública de apoio à campanha de Lula, em um momento decisivo da disputa eleitoral.
“Salve a Amazônia” também mobilizou artistas durante o governo Bolsonaro
O contraste chama atenção quando se recorda a mobilização cultural em defesa da floresta durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Em 2021, artistas participaram do projeto “Canção pra Amazônia”, que ficou conhecido pelo refrão “Salve a Amazônia”. A iniciativa reuniu nomes como Caetano Veloso, Daniela Mercury, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Nando Reis, entre outros, em uma manifestação contra a destruição ambiental.
Naquele período, a preservação da floresta ganhou espaço em músicas, campanhas, manifestações públicas e críticas direcionadas ao governo federal. A questão ambiental também se tornou um dos principais pontos de confronto político entre apoiadores e opositores de Bolsonaro.
A mobilização ajudou a manter as queimadas e o desmatamento no centro do debate nacional e internacional.
Amazônia volta a enfrentar incêndios em 2026
Agora, com Lula na Presidência, os dados sobre incêndios na região também chamam atenção.
Segundo reportagem publicada pelo Poder360 em 15 de outubro, o Amazonas registrou 7.815 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 12 de outubro de 2026. O número representa um aumento de 116% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 3.611 focos.
Os dados são do sistema BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). No mesmo levantamento, o Brasil contabilizou 82.999 focos de incêndio, dos quais 37.035 estavam na Amazônia.
A situação também provocou preocupação com a qualidade do ar em Manaus e em outros municípios. Reportagens recentes apontaram a intensificação dos incêndios em outubro, em meio à seca e às condições climáticas que favorecem a propagação do fogo.
Os números, entretanto, precisam ser analisados com atenção. Focos de calor não correspondem necessariamente a incêndios florestais de grandes proporções, e o aumento das queimadas não comprova, por si só, responsabilidade direta do governo federal. As causas, a localização e as medidas de combate também precisam ser consideradas.
Onde estão os artistas que cobravam a preservação da floresta?
É nesse cenário que surge uma pergunta legítima: a mobilização de artistas em defesa da Amazônia mantém a mesma intensidade quando as críticas podem atingir um governo politicamente alinhado a parte desses músicos?
A nova versão de “Bora Lula” demonstra que artistas continuam dispostos a participar ativamente do debate eleitoral. A iniciativa é legítima em uma democracia. Artistas, assim como qualquer cidadão, têm o direito de manifestar suas preferências políticas.
O questionamento está em outro ponto: a defesa do meio ambiente deve ser uma causa permanente ou ganhar maior visibilidade apenas quando serve para criticar um adversário político?
Não é possível afirmar, sem um levantamento individual das manifestações públicas, que todos os artistas envolvidos nas campanhas anteriores estejam em silêncio diante das queimadas atuais. Tampouco a participação em uma música eleitoral significa que cada artista tenha deixado de defender a floresta.
Ainda assim, a diferença de visibilidade entre campanhas políticas e mobilizações ambientais abre espaço para uma discussão sobre coerência e seletividade no debate público.
A floresta não pode depender de quem ocupa o Palácio do Planalto
A Amazônia é um patrimônio ambiental de importância global. Sua preservação exige fiscalização, prevenção de incêndios, responsabilização de responsáveis por queimadas ilegais e políticas públicas consistentes, independentemente de quem esteja no comando do país.
Se artistas consideraram necessário se manifestar quando Bolsonaro era presidente, também é razoável que o público espere atenção às queimadas durante o governo Lula.
A cobrança não significa ignorar as diferenças entre as gestões nem desconsiderar as medidas adotadas pelas autoridades atuais. Significa defender que os mesmos critérios de cobrança ambiental sejam aplicados a todos os governos.
No fim, a pergunta permanece: a mobilização em defesa da Amazônia é uma causa que ultrapassa partidos e eleições ou recebe mais força quando pode ser usada como instrumento de disputa política?
A resposta deve aparecer não apenas nas músicas e nos discursos, mas também na disposição de cobrar resultados concretos de qualquer governo.





