Sávio di Maio, mestre pela UFMG e doutorando pela USP, considera que o senador soube explorar melhor o confronto, enquanto o presidente perdeu o controle em momentos decisivos.
O debate presidencial da TV Globo, realizado na sexta-feira (23), trouxe um diagnóstico importante sobre a reta final da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na avaliação do cientista político Sávio di Maio, Flávio apresentou um desempenho superior ao do presidente, especialmente na primeira metade do confronto, ao demonstrar maior controle da comunicação, rapidez nas respostas e capacidade de conduzir a discussão.
A análise chama a atenção por vir de um pesquisador de esquerda, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorando pela Universidade de São Paulo (USP). Em vez de atribuir o resultado a uma preferência ideológica, Sávio concentrou sua avaliação na estratégia dos candidatos, na qualidade dos argumentos e na capacidade de comunicação diante do eleitorado.
Flávio mudou de estratégia e ganhou espaço no debate
Um dos principais pontos destacados por Sávio di Maio foi a mudança de postura de Flávio Bolsonaro em relação ao debate anterior, realizado pela Band.
Segundo o cientista político, o senador adotou um comportamento menos agressivo e irônico, procurando transmitir uma imagem mais moderada e institucional. A comparação feita pelo analista é que Flávio deixou de lado parte do estilo combativo associado à sua participação anterior e se aproximou de uma postura semelhante à do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Essa mudança teria produzido efeitos concretos durante o confronto. Para Sávio, Flávio conseguiu dominar boa parte da primeira metade do debate, aproveitando momentos em que Lula não conseguiu organizar suas respostas com a mesma fluidez.
A estratégia também apareceu em gestos calculados de moderação. O senador pediu desculpas ao presidente em duas ocasiões: ao tratar de seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade e ao reconhecer o caráter ofensivo da expressão “nove dedos”, utilizada para se referir a Lula.
Na leitura do cientista político, esses episódios ajudaram Flávio a transmitir uma imagem de humildade e disposição para reconhecer erros — uma postura que contrasta com a expectativa de confronto permanente entre os adversários.
Lula teve dificuldades para controlar o ritmo do confronto
Na avaliação de Sávio, Lula também demonstrou preparação, mas enfrentou dificuldades para administrar o tempo, acompanhar a dinâmica das regras e manter a linha de raciocínio em alguns momentos.
O analista chamou a atenção para a diferença de ritmo entre os candidatos e argumentou que a idade do presidente, que tem 80 anos, pode representar uma desvantagem em confrontos televisivos que exigem respostas rápidas, concentração e capacidade de reação.
O problema, nessa perspectiva, não se resume à idade em si, mas à maneira como o desempenho de Lula se manifestou durante o debate. Em determinados momentos, o presidente pareceu perder o fio da discussão, desviou de assuntos e entrou em embates com o mediador, César Tralli, que prejudicaram a fluidez de sua participação.
Um dos exemplos apontados por Sávio foi a discussão sobre a independência do Banco Central. Embora seja um assunto relevante para a economia brasileira, o analista considerou que a abordagem escolhida por Lula não foi suficientemente eficaz para conquistar o eleitor comum naquele contexto.
Ao introduzir o tema, o presidente teria oferecido a Flávio a oportunidade de reforçar a narrativa de que o PT pretende interferir na instituição e, consequentemente, gerar insegurança econômica.
A crítica do cientista político é estratégica: não basta escolher um assunto importante. É necessário apresentá-lo de maneira que favoreça a própria candidatura, evitando entregar ao adversário argumentos que possam ser explorados durante o confronto.
Caso envolvendo policial acusado de matar criança foi um dos momentos decisivos
Se Flávio conseguiu controlar boa parte do debate, também enfrentou momentos delicados. Um dos principais ocorreu quando Lula questionou sua atuação como advogado de um policial acusado de envolvimento na morte de uma criança.
De acordo com a análise de Sávio, Flávio teve dificuldades para responder à pergunta e reafirmou acreditar na inocência do policial, apesar das evidências mencionadas no confronto. A presença da mãe da menina na plateia tornou o episódio ainda mais emocionalmente impactante.
O assunto representou uma oportunidade para Lula equilibrar a disputa e colocar o adversário na defensiva.
A partir daquele momento, entretanto, o debate passou a ser marcado por uma sucessão de acusações pessoais. Para Sávio, a discussão perdeu qualidade quando os candidatos intensificaram as referências a corrupção, milícias e supostos escândalos, em vez de desenvolver argumentos consistentes sobre os problemas nacionais.
O episódio mostra como um debate pode mudar momentaneamente de direção sem que isso necessariamente determine seu resultado geral. Lula conseguiu pressionar Flávio em uma questão sensível, mas, na avaliação do analista, não sustentou a vantagem durante o restante do confronto.
Acusações virais podem não convencer o eleitor indeciso
Outro aspecto criticado por Sávio foi a tentativa de transformar episódios de grande repercussão nas redes sociais em armas centrais da disputa.
Entre os exemplos citados estão as acusações relacionadas a uma suposta disputa envolvendo uma ilha associada ao jogador Richarlison e a alegação de que um whisky avaliado em R$ 500 mil teria sido dado a Lula pelo empresário Daniel Vorcaro.
Para o cientista político, esse tipo de discussão corre o risco de adquirir características de notícia de tabloide, afastando o debate de temas que interferem diretamente na vida da população.
A crítica não significa que den





