Em tempos marcados pela busca incessante por reconhecimento, status e controle, uma mensagem simples — mas profundamente provocadora — ecoa com força: e se Deus escolhesse justamente aqueles que o mundo não escolhe?
Durante um evento recente, o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, trouxe uma reflexão que ultrapassa o campo jurídico e mergulha na espiritualidade. Em sua fala, ele resgata uma ideia antiga, mas sempre atual: Deus não opera segundo os critérios humanos de poder, inteligência ou prestígio.
Pelo contrário.
Segundo Mendonça, muitas vezes Deus escolhe aquilo que parece “louco” aos olhos do mundo para confundir os que acreditam dominar todas as coisas. Aqueles que se julgam autossuficientes, sábios por si mesmos e capazes de manipular a realidade, acabam surpreendidos por uma lógica divina que foge completamente ao controle humano.
Essa inversão de expectativas é central na mensagem. Não se trata de exaltar a incapacidade, mas de reconhecer que a verdadeira força não vem do ego ou da vaidade — vem da entrega.
A vocação além do conforto
Outro ponto marcante da fala é o conceito de vocação. Em uma sociedade que frequentemente associa sucesso a conforto, viagens e conquistas materiais, Mendonça propõe uma visão diferente: a vocação não está no prazer, mas no propósito.
Isso não significa rejeitar momentos de descanso ou alegria, mas entender que o chamado maior está no trabalho simples, no esforço cotidiano, no “amassar barro” e “capinar”. É na rotina, nas dificuldades e até nos desertos da vida que se revela a verdadeira missão.
A vocação, segundo essa perspectiva, é permanecer firme mesmo quando tudo parece contrário — é estar sozinho, mas ainda assim acompanhado por Deus.
A força dos desacreditados
Talvez uma das partes mais impactantes da mensagem seja a valorização daqueles que são desacreditados. Em vez de se abalar com críticas ou julgamentos, Mendonça sugere um olhar diferente: o descrédito humano pode ser exatamente o espaço onde a ação divina se manifesta.
Quando alguém diz “você não é capaz”, a resposta, nessa lógica, não precisa ser defensiva. Pode ser, simplesmente, uma reafirmação silenciosa de fé: “Deus acredita em mim”.
Essa inversão transforma fraqueza em potência. O que o mundo chama de insuficiência, Deus pode usar como instrumento.
Humildade como caminho
No centro de tudo está a humildade. Não a humildade como submissão passiva, mas como reconhecimento de limites e abertura para algo maior. É admitir que o controle absoluto é uma ilusão — e que há uma força que pode “bagunçar o tabuleiro” quando necessário.
Essa ideia confronta diretamente a mentalidade contemporânea de autossuficiência. Em vez de tentar dominar tudo, talvez o convite seja confiar mais.
Conclusão
A fala de André Mendonça não é apenas religiosa — é existencial. Ela provoca uma pergunta simples, mas poderosa: em que estamos baseando nossa confiança?
Se for apenas em nós mesmos, talvez estejamos construindo sobre algo instável. Mas se houver espaço para reconhecer limites, abraçar o simples e confiar em algo maior, então até os momentos de fraqueza podem se tornar pontos de virada.
No fim, talvez a maior força esteja justamente em não precisar provar nada ao mundo — apenas cumprir, com fidelidade, aquilo para o qual fomos chamados.





