Em entrevista ao programa Bom Dia Cidade, da Rádio Câmara 90.3 FM, apresentado por Vinícius Lima, o professor de História Osmundo Macário de Santana Neto trouxe reflexões importantes sobre a ocupação do território no Planalto da Conquista, os conflitos entre povos indígenas e colonizadores e os equívocos presentes em muitas narrativas populares sobre o passado regional.
Professor da rede municipal de Vitória da Conquista e Barra do Choça, formado em História pela UESB em 2016 e mestre em Ensino de História, Osmundo destacou que compreender a história local exige diferenciar memória social, mito e investigação histórica, além de reconhecer o protagonismo dos povos originários.
O “Banquete da Morte” e o mito fundador da cidade
Um dos temas mais conhecidos da memória popular é o chamado “Banquete da Morte”, associado a um suposto grande massacre de indígenas. Segundo o professor, esse episódio faz parte do mito fundador da cidade, mas não possui comprovação historiográfica suficiente que confirme que tenha ocorrido exatamente da forma como é contado.
Do ponto de vista científico, a História precisa se basear em documentos e pesquisas, enquanto a memória segue caminhos próprios. Isso não significa negar a violência da colonização, mas evitar transformar um mito específico em fato histórico comprovado. O que se pode afirmar é que a colonização foi marcada por diversos conflitos, guerras e massacres, e não por um único episódio isolado.
Povos indígenas: alianças, guerras e protagonismo histórico
A entrevista também destacou que os indígenas não devem ser vistos apenas como vítimas passivas. Eles foram agentes históricos, que resistiram, guerrearam e também fizeram alianças estratégicas para sobreviver.
Na região, os Camacã-Mongoió ocupavam tradicionalmente o território do Planalto da Conquista. Com o avanço da colonização e a pressão sobre outras áreas, povos como os Botocudos (Imorés) e os Pataxó passaram a fazer incursões nesses territórios, o que gerou conflitos entre aldeias rivais. Apesar de serem povos diferentes, eles pertenciam ao tronco linguístico Macro-Jê, compartilhando semelhanças culturais e linguísticas.
Quando os colonizadores chegaram, alguns grupos indígenas passaram a ser vistos como potenciais aliados nas disputas contra aldeias rivais, o que mostra como as alianças faziam parte das estratégias de sobrevivência diante de um cenário cada vez mais complexo e violento.
Diferença entre guerras indígenas e guerra colonial
O professor explicou que as guerras entre aldeias indígenas eram muito diferentes da guerra trazida pelo colonizador, não apenas pelo tipo de armamento, mas também pela proporção da violência e pelo significado cultural dos confrontos.
Em alguns povos, existiam práticas ritualísticas ligadas à guerra, como a captura de inimigos para rituais específicos, práticas que tinham valor simbólico e cultural, muito diferentes da lógica de extermínio em larga escala associada à colonização.
Já a guerra colonial envolvia armas de fogo, maior número de mortos e também o impacto das doenças trazidas pelos europeus, para as quais os povos indígenas não tinham imunidade, tornando o conflito ainda mais devastador.
Agricultura indígena, trocas e a chegada da pecuária
Outro ponto importante da entrevista foi a explicação sobre a economia indígena na região. Os Camacã-Mongoió praticavam agricultura, produzindo alimentos como a mandioca e a farinha, que inclusive abasteciam colonizadores, estabelecendo relações de troca e convivência econômica em alguns momentos.
Já outros grupos, pressionados pelas guerras e deslocamentos, passaram a viver principalmente da caça e coleta, sem tempo ou condições para manter a agricultura. Isso mostra que a dinâmica regional não era uma simples disputa entre “bem e mal”, mas um conjunto de relações marcadas por sobrevivência, negociações e conflitos.
Com os colonizadores, chega também a pecuária extensiva, com o gado criado solto, especialmente na região da caatinga. Esse modelo alterou profundamente o uso da terra e provocou choques culturais, pois a forma indígena de se relacionar com o território era muito diferente da lógica colonial de exploração e ocupação do espaço.
Ao mesmo tempo, houve processos de mistura e adaptação: alguns indígenas passaram a trabalhar como vaqueiros, agricultores e jornaleiros nas fazendas de gado, integrando-se parcialmente à economia colonial, ainda que em condições desiguais.
Contribuições indígenas para a cultura regional
A entrevista também destacou que a presença indígena permanece viva na cultura local. A base alimentar da região, como a farinha de mandioca e seus derivados, muito presentes em produtos típicos de Vitória da Conquista, é herança direta dos povos originários.
Além disso, os conhecimentos indígenas sobre clima, solo, cultivo e circulação no território foram fundamentais para a própria sobrevivência dos colonizadores nos primeiros tempos de ocupação.
Uma história crítica, sem julgamentos simplistas
Para Osmundo, estudar esse período exige cuidado para não fazer julgamentos morais simplistas sobre quem resistiu até o fim ou quem fez alianças. O papel da História é analisar documentos, compreender estratégias e reconhecer que cada povo agiu dentro das possibilidades que tinha para sobreviver.
A história da região é feita de muitos caminhos, idas e vindas, conflitos e alianças, e precisa ser contada valorizando a complexidade dos povos indígenas e sua contribuição para a formação da sociedade atual.
A entrevista termina reforçando que compreender o passado ajuda a explicar muitos comportamentos, conflitos e estruturas do presente, tornando o ensino de História fundamental para a formação cidadã e para o reconhecimento das raízes culturais da região.


