A Zona da Mata mineira vive dias de luto e destruição. São 64 mortos confirmados e mais de 4 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas. Famílias perderam casas, móveis e documentos. Muitas ainda aguardam notícias de desaparecidos.
Desde 23 de fevereiro, as chuvas castigam a região. Em Juiz de Fora, o volume chegou a 240% acima da média histórica. Houve deslizamentos, soterramentos e enchentes. O risco de doenças cresce com a falta de água potável e saneamento adequado.
Diante desse cenário, a prioridade esperada do governo federal seria clara: concentrar todos os esforços na emergência humanitária.
Incentivo cultural em meio à crise
Enquanto Minas Gerais enfrenta essa calamidade, o governo autorizou a captação de R$ 1,6 milhão via Lei Rouanet para o espetáculo “Caê — Reconvexo”. O projeto prevê 18 apresentações gratuitas e oficinas culturais em capitais como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.
É importante reconhecer o valor da cultura. Projetos artísticos movimentam a economia e ampliam o acesso cultural. No entanto, o momento da autorização levanta questionamentos legítimos.
Mesmo sendo um mecanismo de renúncia fiscal, a decisão tem peso simbólico. Em meio a uma tragédia, o gesto soa desconectado da urgência vivida pelos mineiros.
Recursos considerados insuficientes
O socorro federal anunciado inclui R$ 800 por desabrigado. O valor será transferido às prefeituras para compra de itens básicos, como colchões e alimentos. Também foram destinados cerca de R$ 3,4 milhões em assistência humanitária para Juiz de Fora e Ubá.
Embora qualquer ajuda seja bem-vinda, os números parecem modestos diante da dimensão do desastre. A reconstrução de moradias e infraestrutura exige investimentos muito maiores. Além disso, há custos com saúde, limpeza urbana e apoio psicológico.
Medidas como a antecipação do Bolsa Família e do BPC ajudam temporariamente. Porém, não resolvem o problema estrutural deixado pelas enchentes.
A questão das prioridades
O ponto central da crítica não é a existência de incentivo cultural. O debate gira em torno das prioridades em momentos de calamidade pública. Em crises graves, espera-se foco total na população afetada.
Governar exige sensibilidade e capacidade de leitura do cenário. Decisões administrativas também transmitem mensagens políticas. Em meio a buscas por desaparecidos e abrigos lotados, o simbolismo importa.
A população da Zona da Mata precisa de respostas rápidas e robustas. Precisa de presença constante do poder público. Precisa sentir que é a prioridade absoluta.
Quando ações do governo parecem seguir outra direção, a cobrança se torna inevitável. Em tempos de tragédia, empatia e proporcionalidade não são opcionais. São deveres básicos de qualquer gestão responsável.





