Uma professora da rede pública do Espírito Santo provocou debate após publicar um vídeo em que ataca estudantes que apoiam o bolsonarismo e critica quem, segundo ela, não valoriza os institutos federais. Na gravação, feita em São Mateus (ES), a docente defende o legado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas usa expressões ofensivas contra alunos que pensam de forma diferente.
“Então, alunos, não sejam medíocres, negligentes ou burros ou ignorantes”, declara a professora.
Em outro momento, ela intensifica as críticas aos estudantes que apoiam o ex-presidente Jair Bolsonaro e fazem campanha para o bolsonarismo.
“Quem não valoriza o Instituto Federal e faz campanha pro bolsonarismo, você é burro”, afirma.
A docente também usa os termos “violenta” e “fascista” ao se dirigir a esse grupo. Em seguida, questiona o merecimento dos estudantes que frequentam a instituição.
“Você não merece essa instituição de ensino”, diz.
O discurso levanta um questionamento: um estudante precisa concordar com as posições políticas de uma professora para merecer uma vaga em uma instituição pública?
Professora atribui criação dos institutos federais a Lula
Durante o vídeo, a professora aparece na Avenida do Conhecimento, em São Mateus, entre o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Ela destaca a importância dessas instituições para o desenvolvimento regional. Segundo a docente, a chegada do instituto à cidade, há cerca de 20 anos, melhorou a qualidade de vida da população.
Ao defender a expansão da educação pública, ela atribui a criação dos institutos federais ao governo Lula.
“Foi Lula que instituiu os institutos federais”, afirma.
A declaração, porém, simplifica a história da educação federal no Brasil. A rede de escolas federais já existia muito antes dos governos petistas. Em 2008, Lula sancionou a Lei nº 11.892, que criou os institutos federais na estrutura atual e impulsionou a expansão da rede.
Portanto, o governo Lula teve participação importante nesse processo, mas a educação federal não começou com o PT.
Apoiar o bolsonarismo torna alguém menos merecedor da educação pública?
A professora tem o direito de defender Lula, o PT e suas convicções políticas. O problema surge quando ela transforma a divergência ideológica em motivo para insultar estudantes.
Ao chamar alunos de “burros”, “ignorantes” e “medíocres”, a docente desqualifica pessoas por suas posições políticas. Além disso, ao afirmar que determinados estudantes não merecem frequentar a instituição, sugere que o direito à educação depende de uma afinidade ideológica.
Uma instituição pública deve atender estudantes de diferentes correntes políticas. O aluno pode valorizar os professores, reconhecer a qualidade dos laboratórios e defender a manutenção do ensino gratuito sem apoiar Lula ou o PT.
Da mesma forma, apoiar Bolsonaro não significa necessariamente desprezar a educação pública.
A educação deve estimular o pensamento crítico, o debate e a liberdade de opinião. Por isso, o uso de insultos contra estudantes que defendem posições diferentes merece reflexão.
Suposto episódio com material de campanha do PT exige esclarecimentos
Além das declarações do vídeo, um relato aponta que a professora teria se envolvido em outro episódio dentro do Instituto Federal do Espírito Santo.
Segundo essa versão, a docente estaria distribuindo material de campanha do PT quando um estudante recusou o panfleto. A professora, então, teria humilhado e hostilizado o aluno por não aceitar o material.
Até o momento, o material apresentado para esta reportagem não permite confirmar o episódio de forma independente. Também não há, entre os elementos disponíveis, uma manifestação oficial do Ifes que esclareça o ocorrido.
Caso a situação tenha acontecido como descrita, o episódio levanta questionamentos sobre o respeito à liberdade de escolha dos estudantes e os limites da atuação político-partidária no ambiente educacional.
Recusar um panfleto eleitoral é um direito do estudante. Aceitar o material também não significa necessariamente concordar com a candidatura ou com o partido que o distribui.
A reportagem mantém espaço aberto para que a professora, o estudante citado e o Instituto Federal do Espírito Santo apresentem esclarecimentos sobre o caso.
Instituição pública não pertence a partido político
A educação pública é um direito da sociedade, e não uma propriedade de Lula, do PT, do bolsonarismo ou de qualquer outra corrente política.
Os governos podem receber reconhecimento por investimentos e políticas de expansão. No entanto, esse reconhecimento não justifica tratar estudantes de forma depreciativa por suas escolhas eleitorais.
Ao defender a educação pública, uma professora também precisa reconhecer o valor do pluralismo e do respeito às diferenças. Afinal, o papel de uma instituição de ensino é formar cidadãos capazes de pensar criticamente, inclusive para questionar os próprios professores.
O debate sobre a educação federal merece fatos, argumentos e respeito. Chamar estudantes de “burros” por suas posições políticas não contribui para esse objetivo.





