As fortes chuvas que atingiram Vitória da Conquista nos últimos dias reacenderam um debate essencial: por que nossa região registra volumes tão elevados de precipitação e alta incidência de raios? Além disso, estamos preparados para lidar com esses fenômenos que se repetem ao longo dos anos?
Essas questões foram aprofundadas em entrevista concedida pelo professor Rosalve Lucas Marcelino, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, à Rádio Câmara 90.3 FM, durante o programa Bom Dia Cidade, apresentado por Vinícius Lima. Ao longo da conversa, o climatologista não apenas explicou os fenômenos recentes, mas também fez um importante alerta sobre prevenção e planejamento.
Por que há tantos raios na região?
De acordo com o professor, a alta incidência de raios em Vitória da Conquista não é um evento isolado. Pelo contrário, trata-se de uma característica geográfica e climática bem definida.
Em primeiro lugar, a cidade está situada em uma área elevada e relativamente plana. Esse tipo de relevo favorece a ocorrência de descargas elétricas, sobretudo quando há formação de nuvens cumulonimbus, típicas de tempestades intensas. Além disso, áreas abertas e com poucos obstáculos naturais tendem a facilitar a dissipação de energia elétrica.
Ao mesmo tempo, a atuação da Zona de Convergência Intertropical contribui para o deslocamento de grandes massas de ar úmido. Consequentemente, o encontro dessas massas gera diferenças de pressão atmosférica, criando um ambiente propício para tempestades com forte atividade elétrica. Portanto, a combinação entre relevo, altitude e dinâmica atmosférica explica por que a região registra tantos raios.

Chuvas acima da média: o que mudou neste ano?
Normalmente, o período chuvoso em Vitória da Conquista vai de novembro a março, com maior intensidade entre novembro, dezembro e janeiro. No entanto, neste ciclo climático, o comportamento das chuvas fugiu do padrão esperado.
Segundo o professor, a principal explicação está relacionada ao fenômeno La Niña. Esse evento climático alterou tanto o calendário quanto a distribuição das precipitações. Em vez de concentrar volumes maiores no final do ano, parte da chuva foi “represada” e acabou se intensificando entre o final de janeiro e fevereiro.
Além da La Niña, outros fatores contribuíram para o cenário atual. Entre eles, destacam-se a atuação da Zona de Convergência Subtropical e a presença de massa de ar fria estacionária sobre a região. Como resultado, houve uma combinação de alta umidade, instabilidade atmosférica e precipitações contínuas.
Entretanto, há um ponto importante: cerca de 70% do volume previsto para o período já foi registrado. Assim, embora ainda possam ocorrer chuvas nas próximas semanas, a tendência é de redução gradual da intensidade.
Prevenção: um desafio que se repete
Além das explicações técnicas, a entrevista trouxe uma reflexão crítica. Conforme destacou o professor Rosalves Lucas, os padrões climáticos são conhecidos e se repetem ao longo dos anos. Ou seja, não se trata de eventos imprevisíveis.
Se os períodos de maior precipitação são historicamente identificáveis, então os impactos recorrentes — como alagamentos e problemas na drenagem urbana — não deveriam surpreender. Contudo, segundo ele, a comunicação entre a universidade e o poder público ainda ocorre de forma limitada.
Muitas vezes, os especialistas são procurados apenas quando a situação já está instalada. Em contrapartida, a produção científica desenvolvida na universidade — incluindo pesquisas, trabalhos de conclusão de curso e estudos técnicos — poderia subsidiar políticas públicas preventivas.
Portanto, mais do que reagir aos eventos extremos, é fundamental planejar com base em dados consolidados. Embora não seja possível evitar completamente os fenômenos naturais, é plenamente viável minimizar seus impactos por meio de planejamento urbano e gestão eficiente.
E o inverno? O frio deve ser mais intenso
Outro ponto abordado foi a previsão para o inverno. De acordo com projeções baseadas em séries históricas iniciadas na década de 1930, a tendência é de temperaturas mais baixas em comparação ao ano anterior.
Esse cenário se explica por um ciclo natural de alternância entre anos mais quentes e mais frios. Além disso, a transição do fenômeno La Niña também influencia a dinâmica térmica. Somado a isso, a altitude de Vitória da Conquista — próxima de mil metros — intensifica a sensação de frio.
Dessa forma, a expectativa é de um inverno mais rigoroso, especialmente a partir de maio, quando as temperaturas tendem a cair de forma mais consistente.
Conhecimento existe. Agora é preciso agir.
Em síntese, a entrevista reforça uma mensagem clara: informação científica não falta. Pelo contrário, há dados históricos, estudos atualizados e profissionais capacitados analisando o comportamento climático da região.
No entanto, para que esses conhecimentos produzam efeitos concretos, é necessário fortalecer a integração entre academia, poder público e sociedade. Afinal, compreender o clima é apenas o primeiro passo. A verdadeira transformação ocorre quando esse conhecimento orienta decisões, investimentos e políticas preventivas.
Assim, diante de um cenário em que os fenômenos são recorrentes, o desafio não é prever o inesperado, mas agir antes que ele aconteça novamente.





