O Supremo Tribunal Federal (STF) entrou em uma nova fase de tensão interna após o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, retirar de Alexandre de Moraes a relatoria do chamado inquérito das fake news. A decisão ocorre em meio à crise provocada pela divulgação de mensagens envolvendo Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso do Banco Master.
A mudança representa um movimento de forte impacto institucional. Durante anos, o inquérito 4.781 esteve sob a condução de Alexandre de Moraes e se tornou um dos principais instrumentos utilizados pelo STF para investigar ataques, ameaças e disseminação de informações consideradas falsas contra ministros e instituições.
Agora, Fachin assume a condução do caso e pretende levar ao plenário a discussão sobre os fatos relacionados às mensagens entre Moraes e Vorcaro.
Mensagens colocaram Moraes no centro da crise
A crise ganhou força depois que um relatório da Polícia Federal reuniu mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a um número atribuído a Alexandre de Moraes. Segundo informações divulgadas sobre o relatório, as conversas ocorreram em outubro e novembro de 2025 e incluíam pedidos e questionamentos feitos pelo banqueiro ao ministro.
Entre as mensagens reveladas, Vorcaro teria perguntado a Moraes se deveria deixar o país antes de sua prisão. O conteúdo levou o ministro André Mendonça a determinar a retirada do sigilo do relatório e encaminhá-lo para análise da Procuradoria-Geral da República.
O episódio provocou uma reação dentro do próprio Supremo. Moraes apresentou pedido para que Mendonça fosse investigado, alegando possíveis crimes de responsabilidade e abuso de autoridade. A disputa entre os ministros acabou transformando uma investigação envolvendo terceiros em uma crise institucional dentro da própria Corte.
Fachin busca reorganizar o processo
A intervenção de Edson Fachin ocorre justamente diante da sobreposição de decisões e da escalada do conflito entre ministros.
O presidente do STF também determinou que diferentes autoridades apresentassem informações sobre o episódio. Segundo relatos recentes, Fachin avalia a necessidade de uma resposta institucional para evitar que decisões conflitantes entre ministros provoquem ainda mais insegurança jurídica.
O julgamento ganha importância porque deverá colocar os próprios ministros do Supremo diante de um tema extremamente sensível: os limites da atuação individual de integrantes da Corte quando uma investigação passa a envolver outro ministro.
Um inquérito que acumula controvérsias
O inquérito das fake news foi instaurado em 2019 e, desde o início, provocou questionamentos sobre sua origem, seus limites e a forma de condução.
Ao longo dos anos, a investigação foi ampliada e passou a atingir políticos, empresários, jornalistas e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Houve operações de busca e apreensão, bloqueios de redes sociais e prisões relacionadas a diferentes desdobramentos do caso.
Críticos do procedimento questionam principalmente a concentração de funções dentro do próprio STF e a longa duração da investigação.
A retirada da relatoria de Moraes, portanto, não representa apenas uma mudança administrativa. Ela ocorre em um momento no qual o próprio funcionamento do inquérito passou a ser novamente colocado sob escrutínio.
O julgamento poderá expor ainda mais a divisão no STF
O caso envolvendo Moraes e Vorcaro chega ao plenário em um momento de evidente desgaste entre integrantes da Suprema Corte.
André Mendonça liberou para julgamento o relatório da Polícia Federal que aponta a existência das mensagens entre Vorcaro e Moraes. A decisão sobre a inclusão do caso na pauta passou a depender de Fachin.
Ao mesmo tempo, a disputa se ampliou para outras decisões envolvendo a Polícia Federal. Mendonça havia determinado o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, enquanto Flávio Dino posteriormente suspendeu essa decisão e determinou o retorno do dirigente ao cargo.
O resultado é uma situação incomum: ministros da mais alta Corte do país passaram a protagonizar decisões conflitantes entre si, enquanto o presidente do STF tenta reorganizar o processo e impedir que o conflito avance para uma crise institucional ainda maior.
O que está em jogo
Mais do que o destino de uma investigação específica, o julgamento poderá discutir os limites dos poderes individuais dos ministros do STF, a validade dos procedimentos adotados durante o inquérito das fake news e a forma como devem ser investigadas eventuais condutas atribuídas a integrantes da própria Corte.
A decisão de Fachin também coloca um novo capítulo em uma história que já dura mais de sete anos.
O inquérito que nasceu para investigar ataques e ameaças contra o Supremo tornou-se, ao longo do tempo, um dos processos mais controversos da história recente do Judiciário brasileiro.
Agora, ironicamente, o próprio inquérito passa a ser palco de uma disputa interna entre ministros do Supremo.
E, desta vez, os holofotes não estão apenas sobre os investigados de fora da Corte. Estão voltados para dentro dela.





