Política | Eleições 2026
O vídeo publicado por Bernardo P. Kuster, em seu perfil verificado no Instagram, questiona a coleta e a análise de milhares de transmissões de celebrações religiosas no Brasil. O influenciador levanta preocupações sobre a privacidade das igrejas, a liberdade religiosa e a possibilidade de utilização política dos dados.
A investigação mencionada no vídeo, no entanto, corresponde a um levantamento real realizado pela More in Common Brasil em parceria com o grupo de pesquisa Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo analisou celebrações realizadas em 20 e 27 de setembro de 2026, nos dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições.
Pesquisa analisou 7.456 missas e cultos no Brasil
Intitulado “Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras”, o levantamento reuniu 7.456 transmissões disponíveis no YouTube, totalizando 13.886 horas de áudio. A pesquisa abrangeu 25 estados e o Distrito Federal.
Entre as celebrações examinadas estavam 1.785 missas católicas, 3.596 cultos batistas e 2.075 cultos da Assembleia de Deus. Os pesquisadores transcreveram e classificaram os conteúdos para identificar manifestações eleitorais e mensagens relacionadas à participação cívica.
Segundo os resultados divulgados, 237 transmissões, equivalentes a 3,2% do total, continham propaganda eleitoral. O levantamento considerou manifestações favoráveis ou contrárias a candidaturas, incluindo referências diretas e indiretas.
A proporção variou conforme a tradição religiosa:
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Assembleia de Deus: 8,3% dos cultos analisados apresentaram propaganda eleitoral.
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Igrejas batistas: 1,4% das celebrações registraram esse tipo de conteúdo.
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Missas católicas: 0,7% apresentaram propaganda eleitoral.
O estudo também identificou mensagens classificadas como cívicas, como orientações sobre voto consciente e manifestações contrárias à polarização política. Esse tipo de conteúdo apareceu em 15,3% das transmissões analisadas.
Bernardo Kuster levanta suspeitas sobre o uso dos dados
No vídeo, Bernardo Kuster afirma que o monitoramento pode resultar na formação de um banco de dados com informações sobre igrejas, horários das celebrações, nomes de religiosos e transcrições dos discursos.
O influenciador questiona se esse material poderia facilitar representações na Justiça Eleitoral, denúncias ao Ministério Público Eleitoral ou investigações contra líderes religiosos. Ele também sustenta que os números poderiam alimentar uma narrativa direcionada especialmente às igrejas evangélicas, com destaque para a Assembleia de Deus.
Kuster ainda menciona possíveis vínculos entre a rede internacional da More in Common e organizações filantrópicas, incluindo a Open Society Foundations, associada ao empresário George Soros. Entretanto, a existência de relações de financiamento não comprova, por si só, que a pesquisa tenha sido realizada para perseguir igrejas ou favorecer determinado partido político.
A More in Common se apresenta como uma organização sem fins lucrativos e apartidária, financiada por filantropia e investimento social.
O que os pesquisadores dizem sobre o objetivo do levantamento?
A organização apresenta o estudo como uma iniciativa para compreender a presença de propaganda eleitoral nos púlpitos religiosos e contribuir para o debate sobre os limites entre manifestações de fé, participação cívica e promoção de candidaturas.
O antropólogo Rodrigo Toniol, da UFRJ, e o professor Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil, participaram da pesquisa. A análise identificou situações que vão além de pedidos explícitos de votos, como apresentações de candidatos durante celebrações e manifestações de apoio político.
Os próprios resultados, porém, exigem uma ressalva metodológica: o estudo se baseou em transmissões disponíveis na internet e não representa necessariamente todas as igrejas brasileiras. Não é possível concluir, apenas com essa amostra, que os templos que transmitem celebrações tenham o mesmo comportamento daqueles que não disponibilizam seus cultos e missas on-line.
O que diz a legislação eleitoral sobre propaganda nas igrejas?
A Lei nº 9.504/1997, conhecida como Lei das Eleições, considera os templos religiosos bens de uso comum para fins eleitorais e proíbe a veiculação de propaganda eleitoral nesses espaços, conforme o artigo 37 e suas disposições aplicáveis.
A discussão envolve, portanto, a distinção entre propaganda eleitoral e manifestações religiosas ou cívicas sobre temas políticos. A simples análise de um culto ou de uma missa não demonstra a ocorrência de uma infração. Da mesma forma, a identificação de uma possível irregularidade em uma celebração não significa que o responsável será automaticamente punido.
O debate levantado por Kuster coloca em evidência uma questão relevante: como fiscalizar eventuais infrações eleitorais sem comprometer a liberdade religiosa e a liberdade de expressão? A pesquisa fornece dados sobre discursos registrados nas transmissões, mas não comprova, por si só, a existência de perseguição política contra cristãos.
Até o momento, as informações consultadas não apresentam evidências que confirmem a alegação de que o levantamento tenha sido criado para perseguir igrejas católicas ou evangélicas.





