Presidente afirmou não conhecer lobista, citou dados incorretos sobre o PIB e disse ter herdado déficit fiscal de 2,8%; checagem também analisou declarações sobre INSS, fome e Banco Central
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na noite de quinta-feira (27), de uma sabatina promovida pela TV Globo. Durante a entrevista, conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, o presidente foi questionado sobre economia, corrupção, investigações envolvendo seu filho, o escândalo dos descontos indevidos no INSS e outros temas.
Após a entrevista, o UOL Confere publicou uma checagem de algumas das principais declarações feitas por Lula. A análise classificou afirmações como falsas, enganosas, exageradas ou subestimadas, conforme os dados disponíveis.

Roberta Luchsinger: Lula disse que nunca a viu
Um dos pontos de maior repercussão foi a declaração de Lula sobre a lobista Roberta Luchsinger.
Durante a entrevista, o presidente afirmou que nunca havia visto ou conversado com ela. A declaração, porém, foi classificada como falsa pelo UOL Confere.
Segundo a checagem, Luchsinger publicou em suas próprias redes sociais fotografias ao lado de Lula. Os registros foram feitos em 2022, antes do início do atual mandato presidencial. A empresária também é apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A Polícia Federal investiga Luchsinger e Lulinha em um inquérito que apura suspeitas relacionadas a tráfico de influência. A existência de fotografias, entretanto, não comprova por si só qualquer irregularidade ou crime por parte de Lula.
PIB já havia crescido mais de 2% antes do atual governo
Outro ponto contestado pela checagem foi a afirmação de Lula de que o PIB brasileiro só teria voltado a crescer acima de 2% depois de seu retorno à Presidência, em 2023.
O UOL Confere classificou a declaração como falsa. Dados do IBGE mostram que a economia brasileira cresceu 4,8% em 2021 e 3,0% em 2022, ambos os anos anteriores ao terceiro mandato de Lula.
O próprio UOL também aponta que o PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025.
Portanto, embora seja correto afirmar que a economia voltou a apresentar crescimento superior a 2% durante o atual governo, não é correto dizer que esse fenômeno só ocorreu após a volta de Lula à Presidência.
Déficit de 2,8%: dados apontam resultado positivo em 2022
Na discussão sobre as contas públicas, Lula afirmou que havia herdado, em janeiro de 2023, um governo com déficit fiscal de 2,8% do PIB.
A afirmação também foi classificada como falsa pelo UOL Confere.
Segundo dados citados pela checagem, o governo federal terminou 2022 com superávit de R$ 54,9 bilhões, equivalente a 0,6% do PIB. O resultado interrompeu uma sequência de oito anos de resultados negativos.
O Tesouro Nacional também registrou resultado primário positivo do Governo Central em dezembro de 2022.
É importante fazer uma distinção: diferentes conceitos de resultado fiscal podem produzir números distintos, e a situação fiscal de um país não se resume ao resultado primário de um único ano. Ainda assim, segundo o indicador utilizado pelo UOL Confere para verificar a declaração, não houve déficit de 2,8% do PIB em 2022.
Ressarcimento do INSS: declaração foi considerada enganosa
Lula também afirmou que os aposentados prejudicados pelos descontos indevidos no INSS já haviam recebido o dinheiro de volta.
Nesse caso, o UOL Confere classificou a declaração como enganosa.
De acordo com a checagem, até julho de 2026 cerca de R$ 3,26 bilhões haviam sido devolvidos a aproximadamente 4,7 milhões de beneficiários. Entretanto, cerca de 656,9 mil beneficiários ainda não haviam aceitado o acordo necessário para receber os valores, segundo informações do INSS citadas na reportagem.
Assim, houve um ressarcimento expressivo, mas não era correto afirmar que todos os aposentados atingidos já haviam recebido os valores.
“Acabei com a fome duas vezes”
Ao falar sobre segurança alimentar, Lula afirmou que já havia acabado com a fome no Brasil duas vezes.
O UOL Confere classificou a declaração como exagerada.
O Brasil, de fato, deixou o chamado Mapa da Fome da ONU em 2014 e voltou a sair da classificação em 2025. No entanto, isso não significa que a fome ou a insegurança alimentar tenham sido completamente eliminadas no país.
Dados divulgados pelo governo federal com base no relatório da ONU mostram que a insegurança alimentar severa atingia 0,6% da população brasileira no triênio 2023-2025, o menor percentual da série histórica.
Portanto, a saída do Mapa da Fome representa uma melhora importante nos indicadores nacionais, mas não equivale à eliminação absoluta da fome entre toda a população.
Número de presidentes do Banco Central durante FHC
Outra declaração analisada foi a de que Fernando Henrique Cardoso teria trocado três presidentes do Banco Central durante seus dois mandatos.
O UOL Confere classificou a afirmação como subestimada.
Segundo a checagem, FHC indicou quatro presidentes do Banco Central entre 1995 e 2002: Persio Arida, Gustavo Loyola, Gustavo Franco e Armínio Fraga.
A diferença é relevante porque Lula utilizou o histórico de mudanças no comando do BC para comparar sua experiência com a de outros presidentes. Durante a entrevista, também lembrou que permaneceu aproximadamente dois anos de seu atual mandato com Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, à frente da instituição. Essa parte da declaração é considerada correta pela checagem.
O que a checagem mostra
A análise do UOL Confere não se limitou a uma única declaração. Entre os principais pontos examinados estão a relação de Lula com Roberta Luchsinger, os números do crescimento econômico, a situação fiscal herdada em 2023, o ressarcimento dos descontos indevidos do INSS, a situação da fome no país e o histórico do Banco Central durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Em alguns casos, como nas informações sobre PIB e resultado fiscal de 2022, a classificação foi de falso. Em outros, como no ressarcimento do INSS e na afirmação sobre a fome, o UOL utilizou classificações diferentes, como enganoso e exagerado.
A checagem reforça a importância de separar declarações políticas de dados verificáveis. Números sobre crescimento econômico, contas públicas, ressarcimentos e indicadores sociais podem ser conferidos em bases oficiais e precisam ser analisados dentro do contexto e da metodologia utilizada.
Fonte principal: UOL Confere, com conferência de dados do IBGE, TCU, Tesouro Nacional e informações oficiais do governo.





