Deputados petistas acusam André Mendonça de agir com dois pesos e duas medidas. Entretanto, o próprio caso envolve um senador do PT e informações que também atingem autoridades próximas ao campo político do partido.
O PT decidiu aumentar a pressão sobre o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no caso Banco Master. Em uma petição assinada por 17 deputados, parlamentares do PT, PCdoB, PSOL e Rede pediram à Procuradoria-Geral da República que avalie a suspeição do ministro na relatoria das investigações.
Os deputados também encaminharam o pedido ao presidente do STF, Edson Fachin. Na avaliação do grupo, Mendonça estaria adotando critérios diferentes para os investigados, especialmente ao supostamente preservar o senador Flávio Bolsonaro enquanto autoriza a divulgação de informações relacionadas a outros personagens.
A ofensiva política, porém, cria uma situação desconfortável para o próprio PT.
O caso também envolve um senador petista
Ao criticar Mendonça por suposta falta de isonomia, os deputados utilizam como uma das comparações a investigação envolvendo o senador Jaques Wagner.
O detalhe é que Wagner pertence ao próprio PT.
O senador deixou a liderança do governo Lula no Senado depois de entrar no radar de uma investigação da Polícia Federal relacionada ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. A investigação não significa condenação, e qualquer eventual responsabilidade ainda depende de provas e das decisões das autoridades competentes.
Mesmo assim, a situação cria uma pergunta inevitável para o partido.
Se o PT defende transparência e tratamento igual para todos, está disposto a aceitar o mesmo nível de exposição quando a investigação alcança seus próprios integrantes?
Essa pergunta não significa defender Flávio Bolsonaro nem questionar o direito de investigação sobre o senador. Pelo contrário. Se existem elementos contra qualquer político, as autoridades devem apurá-los.
O princípio deveria valer para todos.
A “transparência” precisa valer para os dois lados
Outro ponto central da petição é o pedido para retirar o sigilo das investigações relacionadas ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
Os deputados questionam os recursos atribuídos a Daniel Vorcaro e defendem a divulgação das informações. A argumentação ganhou força porque o caso envolve cifras milionárias e uma produção relacionada diretamente ao ex-presidente.
Politicamente, a oportunidade é óbvia: qualquer informação capaz de aproximar Bolsonaro, sua família e Vorcaro tem potencial para causar enorme impacto eleitoral.
Entretanto, existe um problema.
Transparência seletiva não é transparência.
Se documentos sobre “Dark Horse” devem vir a público por causa do interesse da sociedade, o mesmo princípio precisa alcançar informações envolvendo Jaques Wagner e qualquer outra autoridade citada nas investigações.
Além disso, caso surjam elementos envolvendo ministros do STF, integrantes da Polícia Federal ou membros da PGR, eles também precisam receber o mesmo tratamento dentro dos limites previstos pela lei.
A crise ficou maior quando Moraes entrou no centro do debate
O caso ganhou uma dimensão ainda mais delicada depois que Mendonça autorizou a divulgação de informações relacionadas a mensagens de Daniel Vorcaro envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.
A divulgação provocou novos questionamentos sobre a relação entre o empresário e integrantes do poder público. Ao mesmo tempo, as mensagens não constituem, sozinhas, prova de crime.
Ainda assim, o episódio mudou completamente o cenário político.
Até então, o caso era explorado principalmente pelas possíveis relações de Vorcaro com políticos e pessoas ligadas ao universo de Jair Bolsonaro. Quando surgiram informações envolvendo uma autoridade do Supremo, porém, a discussão ganhou outra proporção.
Por isso, surge outra questão incômoda:
o mesmo rigor exigido contra Bolsonaro deve ser aplicado quando a investigação alcança figuras próximas ao campo político defendido pelo PT?
A resposta deveria ser simples: sim.
O problema do PT é a aparência de seletividade
O discurso dos deputados petistas parte de uma acusação muito séria: a existência de “dois pesos e duas medidas”.
Curiosamente, essa mesma acusação pode ser usada contra o próprio partido.
A investigação precisa avançar sobre Flávio Bolsonaro se houver elementos.
Da mesma forma, Jaques Wagner precisa responder às autoridades caso existam indícios que justifiquem a apuração.
Alexandre de Moraes também deve prestar os esclarecimentos necessários diante de qualquer elemento que exija investigação.
O mesmo vale para integrantes do governo Lula, da oposição, do STF, da PF e da PGR.
Ninguém deveria receber tratamento especial por causa do partido, do cargo ou da proximidade política.
O calendário eleitoral torna tudo ainda mais delicado
Existe ainda um componente político impossível de ignorar: estamos em ano eleitoral.
Flávio Bolsonaro está no centro da disputa presidencial, enquanto o PT busca manter o governo Lula no poder. Nesse ambiente, qualquer investigação que envolva o nome Bolsonaro naturalmente ganha enorme repercussão.
Consequentemente, o Banco Master passou a funcionar também como uma poderosa arma no debate eleitoral.
O PT tem todo o direito de questionar Flávio Bolsonaro e exigir esclarecimentos. O que não pode fazer, sob a ótica da coerência, é defender uma regra para os adversários e outra para os aliados.
Se a investigação é legítima, seus resultados precisam ser aceitos independentemente de quem saia prejudicado.
A pergunta que o PT precisa responder
O pedido contra Mendonça coloca o partido diante de um teste de coerência.
O PT quer transparência?
Então deve defender transparência completa.
Quer investigação?
Então precisa aceitar investigação mesmo quando ela atinge seus aliados.
Quer tratamento igual?
Então o mesmo critério precisa valer para Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Jaques Wagner, Alexandre de Moraes e qualquer outro personagem citado no caso.
Caso contrário, seus adversários terão uma crítica difícil de rebater: o partido não estaria necessariamente combatendo os “dois pesos e duas medidas”, mas tentando decidir quem deve carregar o peso maior da investigação.
O Banco Master virou um teste de coerência política
O caso já ultrapassou os limites de uma investigação financeira.
Agora, envolve empresários, políticos, ministros do Supremo, integrantes da Polícia Federal, membros da PGR e uma eleição presidencial marcada pela polarização.
Nesse cenário, o discurso de transparência precisa sobreviver ao teste mais difícil: aquele em que as informações deixam de atingir apenas o adversário e começam a alcançar pessoas do próprio campo político.
O PT pode cobrar explicações de André Mendonça. Pode questionar suas decisões. Pode pedir o fim do sigilo e defender novas investigações.
Mas terá de aceitar uma consequência inevitável da própria tese.
Se todos devem estar sujeitos à mesma régua, ninguém pode escolher previamente quem ficará debaixo dela.
Essa é a verdadeira prova de coerência no caso Banco Master.





