Em uma entrevista concedida ao Pod+Conquista, podcast apresentado pelo então vereador e atual presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro, o ex-prefeito Murilo Mármore, que já faleceu, revisitou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória política: a crise habitacional enfrentada pelo município em meio à hiperinflação brasileira no final do governo José Sarney.
Com a memória de quem esteve diretamente à frente da administração municipal naquele período, Murilo contou como a prefeitura criou alternativas para atender famílias que, diante da disparada dos preços e da defasagem dos salários, já não conseguiam arcar com o aluguel.
Segundo o ex-prefeito, a inflação chegou a 85% ao mês, criando uma situação de extrema dificuldade para os trabalhadores.
“Ou comprava o leite, o pão, o remédio ou pagava aluguel.”
A consequência, segundo ele, foi o crescimento das ocupações de áreas públicas e privadas por famílias que não tinham condições de continuar pagando moradia.
Murilo fez questão de destacar que não se tratava, em sua avaliação, simplesmente de pessoas que buscavam ocupar terrenos por interesse próprio. Eram, segundo seu relato, trabalhadores e pais de família que haviam chegado a uma situação limite.
Um programa municipal de habitação popular
Foi nesse cenário que a administração municipal criou o Programa Municipal de Habitação Popular (Promap).
Murilo relatou que o município desapropriou aproximadamente 10 milhões de metros quadrados na periferia de Vitória da Conquista, com o objetivo de oferecer áreas destinadas às famílias que estavam vivendo em ocupações.
A estratégia, segundo ele, era evitar que as famílias permanecessem em barracos improvisados e, ao mesmo tempo, impedir que a cidade reproduzisse o processo de formação de grandes favelas observado em outros centros urbanos.
“Se nós não tomássemos essa providência, Conquista seria uma grande favela”, afirmou Murilo durante a entrevista.
De acordo com o ex-prefeito, cerca de 21 mil pessoas foram beneficiadas pelas ações habitacionais desenvolvidas naquele período.
A abordagem adotada pela prefeitura também chamava atenção pela forma como Murilo descreveu sua relação com os moradores das ocupações. Em vez de simplesmente determinar a retirada das famílias, ele dizia apresentar uma alternativa.
Ao chegar a uma área ocupada, segundo seu relato, dizia aos moradores:
“Vocês não vão ficar aqui.”
Mas a frase vinha acompanhada de uma proposta: a prefeitura buscaria outra área para reassentar as famílias e ofereceria condições para a construção das casas.
Material para construir as próprias casas
Um dos aspectos mais marcantes do relato de Murilo Mármore foi o modelo utilizado para viabilizar as moradias.
Segundo ele, a prefeitura fornecia os materiais necessários para a construção das casas, incluindo água, cimento, pedras, blocos e telhas.
O ex-prefeito ressaltou que a iniciativa foi realizada sem depender de recursos do governo estadual ou federal.
“Todo material da casa nós demos”, afirmou.
A prefeitura chegou inclusive a conseguir uma fábrica de tijolos ecológicos, que passou a produzir o material utilizado nas casas.
Mais do que simplesmente entregar os tijolos, o programa envolvia os próprios moradores. Segundo Murilo, as famílias participavam da fabricação dos blocos e destinavam parte da produção para uma reserva mantida pela prefeitura.
Essa reserva chegou, de acordo com o relato, a aproximadamente 150 mil blocos.
O material era utilizado não apenas nas casas, mas também na construção de equipamentos comunitários.
Casas, escolas e equipamentos comunitários
A proposta, segundo Murilo, não se limitava à construção das moradias.
A prefeitura também implantava equipamentos nas áreas ocupadas pelas famílias, entre eles escolas, lavanderias e campos de futebol.
A ideia era criar comunidades com estrutura mínima para atender os moradores, evitando que os novos bairros se transformassem simplesmente em grandes concentrações de habitações sem serviços públicos.
Foi justamente esse ponto que apareceu na conversa com Ivan Cordeiro.
Durante a entrevista, o apresentador chamou a atenção para o fato de Vitória da Conquista não ter desenvolvido grandes áreas de favelização nos moldes encontrados em outras cidades brasileiras.
Murilo relacionou esse resultado a uma série de políticas adotadas ao longo dos anos, incluindo a implantação de loteamentos populares em diferentes regiões da cidade, especialmente na Zona Oeste.
“Momento de solidariedade social”
Outro aspecto destacado pelo ex-prefeito foi a participação dos próprios moradores na construção das casas.
Murilo afirmou que a prefeitura não precisou pagar pela mão de obra utilizada na construção das moradias.
“Se eu disser a você que a prefeitura pagou um centavo de mão de obra, eu estaria mentindo”, declarou.
Para ele, aquele período representou um dos maiores exemplos de mobilização comunitária que testemunhou durante sua trajetória pública.
“Foi o momento de solidariedade social mais importante que eu já tive notícia.”
A declaração resume a maneira como Murilo Mármore enxergava aquela experiência: não apenas como uma política de habitação, mas como uma ação coletiva envolvendo poder público e população.
Uma memória que permanece
Anos depois daquela experiência, o relato de Murilo Mármore no Pod+Conquista ganha também um caráter de registro histórico.
Mais do que números e programas administrativos, a entrevista recupera a memória de um período em que a inflação corroía rapidamente a renda das famílias e colocava a moradia entre as principais dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.
O depoimento também ajuda a compreender parte da formação urbana de Vitória da Conquista e as políticas que, na visão do ex-prefeito, contribuíram para evitar a expansão de grandes áreas de favelização.
Ao relembrar aquela história, Murilo não falou apenas sobre terrenos, blocos, casas e desapropriações. Falou sobre uma cidade que enfrentava uma crise econômica severa e sobre a tentativa de encontrar uma solução local para um problema que atingia milhares de famílias.
A entrevista concedida ao Pod+Conquista, portanto, permanece como um importante registro sobre uma das páginas da história da habitação popular em Vitória da Conquista — e sobre a visão de um ex-prefeito que, já falecido, deixou naquele depoimento sua própria memória sobre as decisões tomadas em um dos períodos mais delicados da história econômica brasileira.





